Selma Egrei e Letícia Sabatella em Querida Mamãe

Relações familiares trazem consigo mágoas aprisionadas em calabouços interiores quase sempre intangíveis. Situações a que não damos a devida importância, maquiando-as em meio ao cotidiano, podem se transformar em discursos carregados de pesar, choros intermitentes e olhares de condenação quando chegam ao seu limite, sem opção de escapatória. Querida Mamãe, de Jeremias Moreira (O Menino da Porteira, 2009), expõe algumas dessas reações, a ponto de encará-las como requisitos para a composição de um bom enredo dramático, porém se esquece do principal: a consciência da humanidade de seus personagens.

Baseado na obra de Maria Adelaide Amaral, escrita originalmente para o teatro, o filme nos mostra Heloísa (Letícia Sabatella), mulher que além de presa a um casamento infeliz com o publicitário Sérgio (Marat Descartes), não suporta o cargo na área da saúde que ocupa no SUS. Assuntos como as comparações com a irmã que vive no exterior, a rejeição ao seu corpo e a baixa autoestima que se reflete em sua aparência nada vistosa, tomam proporções maiores sempre que a médica resolve visitar a mãe Ruth (Selma Egrei), cujas palavras são tidas como impropérios pela filha.

Se diante de problemas menores, Heloísa faz questão de expor os nervos exaltados, mal sabe ela as consequências que a dissolução de seu matrimônio acarretarão à sua vida, sendo a incompreensão da filha adolescente Priscila (Bruna Carvalho) a maior delas, principalmente depois que a médica encontra abrigo nos braços da artista plástica Leda (Cláudia Missura), paciente por quem se apaixona, responsável por apresentar novas possibilidades no âmbito amoroso à protagonista, que será vítima de reprovação da família, aturando, a princípio, o lado mais tradicional e pouco empático da mãe, que esconde um carcinoma, fato que só ajuda a evidenciar ainda mais a fragilidade do esteio maternal, que quase sempre nos parece inabalável.

Reféns de reações exageradas e gestos que flertam com o histrionismo, as atuações são apenas um dos pontos que minimizam o valor do trabalho de Moreira, que não consegue propor um debate audiovisual nem mesmo quando dirige o seu elenco, que seria capaz de reabilitar essa construção narrativa pouco dada a desdobramentos substanciais, criando assim uma incompatibilidade de ritmo no curso da trama, que não promove envolvimento significativo com o espectador, pela falta de complexidade nas relações humanas abordadas.

Os planos abertos que escancaram São Paulo não estão presentes apenas para sinalizar o local como berço dessa história de abalos familiares e de um amor condenado; eles servem também para exibir a grandeza da capital, deflagrando assim a solidão que assalta os indivíduos residentes na verticalizada imensidão plural dessa cidade espantosa, mas sedutora, assim como o relacionamento de Heloísa e Leda.

Incorporadas à narrativa, algumas canções ajudam a fortalecer a atmosfera conflituosa que vai se integrando ao filme no decorrer dos atos. Versos da canção Fim de Caso, na voz de Dolores Duran, evidenciam a ausência de carinho e de cuidado que pode haver num casamento, desconstruindo a ideia de que as relações de papel passado duram para sempre, debate que surge, inclusive, em uma das conversas entre Helô e sua mãe. Além disso, a identidade visual da banda O Terno aparece estampada na camiseta de Priscila, soando como um prenúncio para a inserção da música Volta, uma súplica pelo regresso de um amor, interpretada pelo grupo.

Preso a uma história que pouco se aprofunda na conflagração dos ressentimentos entre mãe e filha, o longa encontra nesse ponto o maior demérito de sua narrativa, por não investigar as emoções que agregariam tridimensionalidade aos papéis. Ademais, a protagonista vivida por Sabatella sofre com o predomínio da ambiência lamuriosa que cerca Heloísa, sendo este mais um empecilho para que se estabeleça uma conexão com o público. Deste modo, Querida Mamãe descuida do caráter humano de sua trama, trocando esse fator pela afetação de sentimentos inauditos ao espectador.

Querida Mamãe
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