Charlize Theron em Tully

Desde que o caminho de Jason Reitman cruzou com a sagacidade e com o espírito sardônico de Diablo Cody, seu cinema nunca mais foi o mesmo. Dono de um histórico profissional, até então, humilde, composto por alguns curta-metragens e o notável Obrigado por Fumar (2005), o realizador pôde desfrutar de uma ascensão meteórica a partir do longa Juno (2007), filme indicado ao Oscar e responsável por marcar o início da parceria entre os dois. De lá pra cá, as obras de maior relevância narrativa da carreira do diretor tem o dedo de Cody no roteiro. Ainda que a produção Jovens Adultos (2011) tenha passado despercebida, a essência inventiva e irônica da escritora está toda ali, obtendo êxito na construção de um cinema de assinatura ao lado de Reitman.

Felizmente, Tully é mais um bem-sucedido encontro da dupla, que aqui desperta de um recesso que deixou saudades. Num universo por onde pessoas comuns transitam de mãos dadas com seus dilemas corriqueiros, Cody promove uma quebra entre os personagens e tais conflitos aparentemente costumeiros, entregando ao espectador uma história sustentada pelo avanço de expectativas, unida a diálogos fartos de escárnio, conseguindo reinar absoluta no decorrer da progressão narrativa, sempre fértil em seus roteiros.

Aos poucos temos acesso às preocupações de Marlo (Charlize Theron), que além de enfrentar o estágio final de uma gestação, concilia a gravidez com os afazeres domésticos e com os cuidados no tratamento cotidiano concedido aos filhos Sarah (Lia Frankland) e Jonah (Asher Miles Fallica), este último detentor de necessidades especiais, tido como uma criança peculiar e com dificuldades de adaptação na escola que frequenta.

Como se já não fosse o suficiente, ela se vê rodeada por um ciclo de segurança que vem junto ao tédio de seu casamento com Drew (Ron Livingston), mas as coisas logo mudam de figura quando Craig (Mark Duplass), seu irmão bem de vida, coloca-se à disposição para arcar com os custos de uma babá noturna, afirmando que isso mudaria por completo a vida de Marlo, que exibe uma tremenda expressão de esgotamento por onde passa.

O recém-nascido lhe traz demandas que fracionam o seu sono, colaborando ainda mais para o estabelecimento de sua exaustão. As frequentes trocas de fralda e as constantes amamentações a deixam num estado de extrema fadiga, momento em que decide acatar a sugestão do irmão, chamando a babá Tully (Mackenzie Davis) para auxiliá-la no turno da noite. Logo que inicia no trabalho, a jovem demonstra suas habilidades não só na assistência ao bebê, expondo também seus dotes culinários e seu talento nato na arrumação da casa.

O vínculo entre Marlo e a babá não tarda a ocorrer, fato que colabora para o dinamismo da película, que mesmo ao apresentar com rapidez a resolução de seus conflitos, sabe esmiuçá-los, como na cena em que ambas saem de casa e vão curtir a noite num bar, responsável por investigar os dilemas de Tully a partir dos estímulos externos que o local onde estão proporciona. Nos momentos que antecedem esse instante da obra, elas se encontram no carro e escutam várias faixas do álbum She’s So Unusual (1983), de Cyndi Lauper, ao longo do trajeto, servindo como uma espécie de signo a respeito da babá, que assim como o título do disco carrega uma atipicidade no modo de enxergar a vida.

Engenhoso ao lidar com as mudanças sofridas por Marlo após o aparecimento de Tully, cujo papel custou a Theron um considerável ganho de peso, o filme expõe a trajetória de uma mulher que sentia o seu corpo como um lugar devastado até chegar ao apogeu da reabilitação de sua disposição, trazendo de volta ao seu cotidiano o sentimento de vivacidade e uma articulação de discurso desprendida de convenções sociais.

Tully é uma instigante jornada pelo processo de maternidade, revelada através de um humor ácido e inteligente, que ajuda na desconstrução desse período singular na vida de uma mulher, através da exposição dos dois lados da moeda, sendo este o trunfo para tornar o filme tão espirituoso quanto os anteriores realizados pela dupla Reitman e Cody.

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