Adaptar um personagem mirim à sua versão adulta não é exatamente uma novidade. Hook – A Volta do Capitão Gancho fez crescer Peter Pan, o garoto que nunca cresce, enquanto Toy Story 3 trouxe Andy em uma fase de desapego com seus queridos brinquedos. No inédito Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível, a transição para a vida adulta ocorre de maneira muito mais agressiva.

Através de uma longa sequência de abertura, vemos o garoto Christopher, amigo do Ursinho Pooh e cia., despedindo-se de sua infância e passando por uma série de transformações: a perda do pai, a vida de universitário, o casamento, a convocação à guerra, o nascimento da filha, a promoção no emprego e, mais crucial à história, o sacrifício de seu tempo livre. Enquanto tudo isso ocorre, Pooh continua no Bosque dos Cem Acres, aguardando a visita do amigo ao longo dos anos.

Trata-se de uma bela sequência que logo ilustra quão incomum é a inteligência emocional de Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível, que traz uma aventura relativamente contida e madura. Nela, o personagem titular, que é interpretado por Ewan McGregor, passa por uma espécie de engenharia reversa, ou melhor, uma descompressão da vida adulta. Diferente de outras produções recentes da Disney, são as pequenas coisas que importam nessa jornada, no fim de tudo aparentando grandiosas.

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Na trama, Christopher Robin, que é gerente em uma empresa de malas para viagem, se encontra diante de um impasse: no mesmo fim de semana em que viajaria com a família, é encarregado de planejar um corte de gastos na firma, ou seja, escolher a dedo quem fica e quem será mandado embora. Christopher, no entanto, não conta com a visita de Pooh ao seu mundo, sendo lembrado da importância de fazer nada. Entregar-se ao nada, contudo, não será tão simples assim.

Apesar do dilema que é proposto pelo roteiro de Alex Ross Perry (Cala a Boca, Philip), que contou com revisões de Tom McCarthy (Spotlight) e Allison Schroeder (Estrelas Além do Tempo), Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível nunca se entrega a qualquer tipo de cinismo – este ainda é um filme estrelado pelo Ursinho Pooh, afinal. O longa é ambientado numa Londres cinzenta, que ainda está no processo de recuperação pós Segunda Guerra Mundial, mas o clima se mantém leve mesmo após a abertura dramática que descrevi acima.

A direção de Marc Forster, que este ano lançou no Brasil o indeciso Por Trás dos Seus Olhos, pode ser o aspecto mais divisor do filme. Conduzindo a maioria das cenas com a sensibilidade de um drama indie, Forster parece inicialmente fora de sincronia com o roteiro, que deve ter sido adocicado nas revisões de McCarthy e Schroeder. Com o tempo, entretanto, a direção se mostra mais e mais à vontade com o material, embora o ato final seja convencional até demais.

Forster ainda filma personagens como Pooh, Ió, Leitão e Tigrão da mesma maneira como registra os atores humanos, tornando suas interações muito mais palpáveis. Algo que também impressiona é a implementação dos efeitos digitais, que são fotorrealistas na medida certa, sem tirar o charme cartunesco dos animaizinhos. Neste caso, Pooh é claramente quem rouba muitas das cenas, protagonizando bons momentos de humor pastelão ao lado de Christopher Robin.

Quanto às interpretações, os animais acabam se destacando mais do que os atores em carne e osso. Jim Cummings novamente empresta sua voz icônica ao Ursinho Pooh, calma e rouca como sempre, entregando suas piadas com elegância e surpreendendo nas cenas dramáticas. O comediante Brad Garrett, por sua vez, interpreta Ió com desânimo – no bom sentido. Com seu timbre grave e monótono, o personagem será o favorito de muitos espectadores, soltando falas melancólicas e pessimistas sempre que pode. Para completar, talentos britânicos como Toby Jones, Peter Capaldi e Sophie Okonedo também marcam presença com o resto dos animais, apesar de suas participações serem mais breves.

A contraparte humana do elenco, então, nunca chega a brilhar, mas isso não quer dizer que seu desempenho seja ruim. O sempre confiável Ewan McGregor faz boa construção de um Christopher Robin mais retraído e desesperançoso, mantendo-se também preparado para os diversos momentos de alívio cômico. Além disso, McGregor interage de maneira bastante convincente com os personagens digitais, transmitindo o sentimento de que são, de fato, velhos conhecidos.

Hayley Atwell, por sua vez, faz o que pode como a personagem da esposa, que infelizmente possui propósitos rasos na trama. Já Mark Gatiss, que interpreta o caricato chefe de Christopher, destoa do resto mas não chega a comprometer suas cenas. Há ainda pequenas pontas de rostos conhecidos do cinema infanto-juvenil inglês, como Simon Farnaby, que havia se destacado anteriormente como um guarda apaixonado nos dois filmes do ursinho Paddington.

Visual e sonoramente, além dos efeitos digitais, o filme não fica devendo muito às outras superproduções recentes da Disney. A fotografia de Matthias Koenigswieser aposta em temperaturas frias, mas faz uso elegante da granulação e de luzes duras para criar uma forte atmosfera de época. A trilha musical da dupla Geoff Zanelli e Jon Brion, então, apresenta a mesma elegância e também é criativa no uso de certos instrumentos, como as trompas que representam os temíveis Efalantes que rondam o decadente Bosque dos Cem Acres.

Se há algo que impede Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível de atingir a grandeza, isso seria a resolução simplista da trama. Não é lá muito justo exigir que um filme do Ursinho Pooh seja encerrado de um jeito amargo, mas as respostas ao conflito que o protagonista vive são fáceis demais e um bocado implausíveis, tornando sua mensagem de que “algo pode vir do nada” mais difícil de engolir.

No entanto, Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível se destaca por ser uma aventura infanto-juvenil que tem a ousadia de abordar sentimentos delicados como stress, ansiedade e desgaste profissional sem nunca se perder da essência que tornou os personagens criados pelo escritor A.A. Milne tão queridos. Dentre as diversas versões revisionistas que a Disney tem lançado nos últimos anos, está também entre as únicas que justificam sua existência, mesmo sem reinventar a fórmula.

Christopher Robin: Um Reencontro Inesquecível
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