O gênero da distopia adolescente já não tem a mesma popularidade de antes, mas continua a render novas tentativas de criar franquias a cada ano. Em 2018, Mentes Sombrias chega não só como sintoma disso como também pega carona no sucesso cada vez maior dos filmes de super-heróis, adaptando o recente livro homônimo de Alexandra Bracken. No entanto, o longa dirigido por Jennifer Yuh Nelson entra, infelizmente, para a lista de adaptações que não dizem ao que vieram.

Ambientado em um mundo no qual jovens ganham poderes misteriosamente e por consequência são caçados, Mentes Sombrias traz como protagonista Ruby Daly, interpretada por Amandla Stenberg (Tudo e Todas as Coisas), que é levada ainda pequena para um campo de prisioneiros superpoderosos. Após passar anos encarcerada, Ruby recebe a ajuda de uma estranha e, finalmente livre, acaba cruzando o caminho de um trio de jovens que são especiais como ela. Procurados pelo governo e facções renegadas, o bando então procura por um mítico acampamento onde estarão à salvo de seus perseguidores.

O principal problema de Mentes Sombrias – e há muitos – é o pobre desenvolvimento do roteiro adaptado por Chad Hodge (Wayward Pines). Embora muitos dos conceitos apresentados já sejam comuns para o público-alvo, não há como ignorar a superficialidade com que são desenvolvidos. Os diferentes poderes, por exemplo, são separados por cinco cores: laranja, vermelho, amarelo, azul e verde. Cada uma das cores determina o quão poderoso (e perigoso) é o jovem, no entanto não há um critério que fique claro para essa separação, ao menos nesta adaptação para os cinemas – cuspir fogo, pelo visto, sempre será mais perigoso do que emanar eletricidade pelo corpo ou levitar grandes estruturas com a mente.


Outro aspecto decepcionante de Mentes Sombrias é a falta de criatividade na manifestação destes poderes, deixando a impressão de que o longa é, na verdade, só mais um romance teen travestido de história de superpoderes. Enquanto a telecinese e a eletrocinese são melhor aproveitadas nas sequências de ação, a inteligência máxima de outro personagem se manifesta através de… ensinar a tabuada e fazer constatações óbvias? Pior ainda, não há regras claras para como e quando o poder de Ruby, que é crucial para a história, pode ou não ser utilizado, surgindo apenas quando é conveniente para o avanço do enredo.

Apesar de não comprometer, o elenco fica limitado pelo material adaptado, em especial a esforçada Stenberg, que retorna aos cinemas em outubro com outra adaptação, O Ódio que Você Semeia. Assim como os outros jovens intérpretes, a atriz faz o que pode para conferir humanidade a Ruby, que em si não é uma personagem marcante. Enquanto isso, grandes nomes como Bradley Whitford (Corra!) e Gwendoline Christie (Game of Thrones) são desperdiçados em papéis breves – especialmente Christie, que surge promissora mas logo é deixada de escanteio, como foi com a Capitã Phasma nos últimos Star Wars.

O filme ainda peca pela falta de originalidade, algo que já fica aparente nas “inspirações” nos filmes dos X-Men – com direito a um momento praticamente copiado de Origens: Wolverine. Enquanto até mesmo a fraca saga Divergente era capaz de se distinguir da concorrente Jogos Vorazes, Mentes Sombrias não consegue apresentar ideias distintas, oferecendo apenas personagens rasos e diálogos batidos. Por isso mesmo, a decisão de deixar a trama em suspensão e concluir o longa com um gancho para sequência soa bastante presunçosa dos produtores, contentando-se a entregar um produto que, embora não seja incompleto, é bastante insatisfatório.

Fenômenos como Harry Potter e Jogos Vorazes visaram pela introdução de universos literários fascinantes ao cinema, demonstrando riqueza não só nas ideias mas também em seus personagens. Mesmo cumprindo um propósito comercial, as duas franquias tinham muito a dizer e mostrar, garantindo a admiração de espectadores além de seu público-alvo e abrindo um leque de novas possibilidades para o cinema infanto-juvenil. Mentes Sombrias, por sua vez, é mais uma entre tantas outras produções mais preocupadas em seguir velhas tendências do que criar novas, fazendo pouco para conquistar seu pedaço do bolo em um mercado saturado.