Qual a função da sátira? É simplesmente zombar e fazer graça? Ou ela também serve para provocar reflexões? Talvez essa não seja a pergunta certa, já que O Candidato Honesto 2 pode se encaixar nessa categoria, mesmo que pelos motivos errados. Portanto, a pergunta que vale é: o que é uma boa sátira? Neste caso, o filme dirigido por Roberto Santucci e protagonizado por Leandro Hassum não se encontra entre os exemplos por uma variedade de razões, algumas mais problemáticas que as outras.

Para quem não viu o primeiro longa da saga de João Ernesto (Leandro Hassum), trata-se da sequência para a história de um político corrupto até os dentes que, em uma guinada mágica, torna-se incapaz de mentir e passa a dizer apenas a verdade, o que compromete sua candidatura e eventualmente o leva à sua prisão. Em O Candidato Honesto 2, passaram-se anos desde sua queda e João Ernesto é solto, não demorando a ser puxado de volta à dança das cadeiras que é a política brasileira.

Ainda incapaz de mentir, João Ernesto tem grandes ressalvas quanto a se recandidatar à presidência, mas é manipulado por seu futuro vice Ivan Pires (Cássio Pandolfi) a entrar novamente no jogo. Tentando se reconciliar com o filho mais velho e Amanda (Roseanne Mulholland), interesse romântico do primeiro filme, João decide usar a candidatura como oportunidade de corrigir seus erros passados, mas se vê incapacitado pelas maquinações políticas do vice e pela popularidade do principal candidato da oposição Pedro Rebento, cujas visões políticas favorecem a intolerância e o ódio.


Descrevendo desta maneira, O Candidato Honesto 2 parece investir em um comentário político que, mesmo que entregue de forma grosseira, poderia suscitar discussões necessárias… Certo? Bom, infelizmente, se há uma atitude que marca a trama do filme tanto tematicamente e qualitativamente, é a resignação. Utilizando questões urgentes como se fossem meros easter eggs de um universo cinematográfico, o roteiro de Paulo Cursino não chega nem mesmo a tecer, de fato, comentários sobre o caos político do país, apenas mencionando tópicos em uma cena para esquecê-los quase que completamente na seguinte.

Um dos primeiros momentos no filme a exemplificarem isso é a breve conversa entre João e seu filho sobre a ascensão de Pedro Rebento, que queima uma bandeira LGBT em rede nacional, o que leva o protagonista a questionar o porquê de alguém defender ideais tão odiosos. Não muito tempo depois, é o próprio João quem solta frases homofóbicas gratuitamente, não como uma maneira do roteiro de demonstrar seu preconceito internalizado mas como uma forma barata de arrancar risadas do público. Isso vale para todas as discussões que o filme “propõe” e inclusive para a própria conclusão da trama: problemas são reconhecidos brevemente e logo são abandonados com completo desinteresse.

Não satisfeito com seu desprezo pelas questões políticas citadas, o roteiro de Cursino ainda faz questão de fazer pouco caso de produções nacionais muito superiores, acobertando seu mau-gosto com a autodepreciação forçada de Leandro Hassum. Enquanto uma estagiária apresenta o catálogo de produções nacionais disponíveis no cinema particular do então presidente (spoilers?), é descrita uma amálgama de filmes como Aquarius e até mesmo o injustiçado Tudo que Aprendemos Juntos, filme com Lázaro Ramos que tinha tudo para emplacar um sucesso – menos a distribuição merecida. Ouvindo a sinopse deste filme ficcional, João logo cai no sono, e isso talvez até represente a real rejeição de parte do público a esse tipo de história. No entanto, Cursino está, sem mais nem menos, subestimando o interesse do público brasileiro por narrativas de qualidade e perpetuando a falsa noção de que o cinema comercial apenas funciona quando lança produções rasteiras, tais como essa.

Nem mesmo o elenco, que possui algumas participações promissoras, salva o filme de sua completa falta de carisma. A começar por Hassum, que se entrega completamente aos seus piores vícios de interpretação e torna suas cenas simplesmente irritantes, com diálogos que consistem em pelo menos 80% de interjeições como “eita”, “porra” e “eita porra” – não se sabe ao certo se é um problema enraizado no script ou apenas má improvisação.

Cássio Pandolfi, dono de uma assombrosa semelhança a Michel Temer, tem um semblante memorável mas é deixado com diálogos desprovidos de humor, enquanto Flávia Garrafa volta como Isabel Praxedes, que representa o cansado estereótipo da mulher pouco atraente que persegue o protagonista. Ainda entre o potencial cômico desperdiçado, estão Paulinho Serra, Mila Ribeiro e até mesmo Falcão. Enquanto isso, Roseanne Mulholland e Maria Padilha, que interpreta a candidata Marisa Valente, estão deslocadas e parecem estar em uma produção completamente diferente.

O que garante a O Candidato Honesto 2 vislumbres de criatividade é o diretor Roberto Santucci, que executa alguns trechos visualmente bem feitos, como o plano em “dolly zoom” que revela a sombra de Ivan Pires, o “Vampires”, à espreita de João, numa alusão óbvia a filmes como Nosferatu e Drácula de Bram Stoker. Esta, no entanto, é uma comédia, e não há competência estética que salve um roteiro desse calibre, com piadas que, além de nada criativas, são muito mal construídas.

Em um ano decisivo para o país, O Candidato Honesto 2 representa o sujeito que entra na conversa mas não sabe terminá-la com coerência, talvez porque não tenha o mínimo estofo para tal. No entanto, ao invés de admitir sua incapacidade para discutir tópicos além de seu domínio e procurar se informa, desiste de pensar e tenta mascarar essa resignação intelectual com frases feitas e um bocado de senso comum. Para um filme tão verborrágico, é irônico que O Candidato Honesto 2 não pareça ligeiramente interessado em criar conversas.