Slender Man, o “homem magro”, não é tanto uma lenda urbana como é, na realidade, um ícone. Popularizado a partir de imagens alteradas digitalmente por um estudante de fotografia, a figura do homem alto e esguio de terno e gravata logo ficou embrenhada no imaginário popular, ou, ao menos, na mente dos internautas adolescentes. A força de sua imagem, somada às diversas histórias inventadas sobre sua influência paranormal, é tanta que levou duas garotas adolescentes à tentativa de assassinato de uma amiga em 2014, caso que deixou pais em estado de alerta e foi abordado pelo recente documentário da HBO Cuidado com o Slenderman.

Pouco mais de quatro anos se passaram e chega aos cinemas, depois de muita controvérsia, o terror Slender Man: Pesadelo Sem Rosto. Sem a mínima ambição de discutir o fenômeno inusitado que levou uma simples brincadeira da internet a deixar sérias cicatrizes emocionais em três adolescentes, o roteiro escrito por David Birke (Elle) parte da infeliz proposta de criar um cânone para Slender Man, tal como Quando as Luzes se Apagam e Annabelle fizeram com seus monstros, e apelar para um público jovem e pouco exigente com uma série de sustos fáceis.

Trata-se de uma estratégia de muito mau gosto, especialmente se considerarmos que Morgan Geyser e Anissa Weier, assim como sua vítima Payton Leutner, ainda sentem na pele os reflexos traumáticos de um crime cujas circunstâncias são extremamente delicadas – Geyser, que premeditou o ataque à amiga, apresenta sinais de um quadro de esquizofrenia. Slender Man: Pesadelo Sem Rosto nunca se dá ao trabalho de reconhecer a fragilidade do que está explorando, também ignorando o impacto dos acontecimentos sobre os pais das vítimas, algo que Cuidado com o Slenderman documentou com grande empatia.

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Vamos, no entanto, supor que não é justo julgar um terror adolescente como esse a partir de parâmetros tão reais. Infelizmente, avaliando Slender Man: Pesadelo Sem Rosto de uma perspectiva exclusivamente cinematográfica, o filme dirigido por Sylvain White (Os Perdedores) também não possui nenhuma qualidade que o distinga dentro do estagnado catálogo do terror contemporâneo. Algumas trucagens são esteticamente interessantes mesmo que desprovidas de qualquer significado, mas, visto que a figura de Slender Man já foi evocada tantas vezes com maior criatividade por artistas no Deviantart, White decepciona por não se apropriar da icônica aparência do monstro para criar momentos de terror realmente memoráveis, sem apresentar qualquer conceito visual inédito.

Já o roteiro, além de explorar poucas facetas do mundo hiperconectado no qual vivemos, faz um péssimo trabalho na construção de suas personagens, para não dizer que não contam com desenvolvimento algum. Sabemos pouquíssimo sobre as quatro amigas que, após assistir a um vídeo em um site misterioso, passam a ser assombradas pelo Slender Man. Sem diálogos espontâneos ou que reflitam suas personalidades, não há envolvimento emocional qualquer com as personagens e portanto também não há tensão quando estão sob a ameaça da entidade, deixando-nos apenas com o tédio. A falta de desenvolvimento é tanta que a montagem de Jake York recorre com frequência a planos de fotos emolduradas das garotas reunidas e sorridentes para nos lembrar que são, de fato, amigas. Inevitavelmente, com um material tão raso, atrizes competentes como Julia Goldani Telles (The Affair) e Annalise Basso (Capitão Fantástico) são completamente desperdiçadas, apesar de seus esforços.

Outro grande desperdício de Slender Man: Pesadelo Sem Rosto é Javier Botet, ator espanhol cuja excelente fisicalidade o permitiu interpretar criaturas marcantes em produções recentes de terror, como o Homem Torto em Invocação do Mal 2 e o monstro titular em Mama. Apesar de fazer algumas aparições físicas como o Slender Man, Botet é frequentemente substituído por uma óbvia versão digital do monstro, o que deixa a criatura sem peso e radicalmente menos ameaçadora, deixando a desejar até mesmo para seu orçamento relativamente enxuto de 10 milhões de dólares. Ao menos, mesmo deixado de escanteio, Botet ainda faz uma ponta interessante dentro de um hospital, em uma das únicas imagens realmente inquietantes do longa.

Apoiando-se em um desenho sonoro eficiente, Slender Man: Pesadelo Sem Rosto até consegue criar uma ligeira perturbação em certos momentos. Contudo, sem uma condução suficientemente criativa e uma trama vazia que ainda é mal costurada pela montagem, o filme não ganha o peso necessário para ser visto como um comentário sobre os perigos da era digital e nem possui a energia para empolgar em um nível exclusivamente visceral, ficando no amargo meio do caminho. Talvez nem mesmo adolescentes desavisados, provavelmente o público pretendido para a produção, devem permanecer entretidos ao longo de toda a projeção.

Slender Man: Pesadelo Sem Rosto
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