Vez ou outra, o cinema independente norte-americano entrega obras que parecem construídas especificamente para corresponder a expectativas moderadas. Geralmente são aquelas comédias dramáticas que não são nem tão tradicionais para o grande público e nem tão fora do eixo para garantir status de cult dentro de um nicho. Não se tratam de experiências realmente catárticas ou comoventes, mas apenas tira-gostos cinematográficos que fazem o básico para capturar a atenção do público e deixá-lo com um sorriso discreto no rosto. Esse é o caso de Limites, nova comédia dramática da diretora e roteirista Shana Feste.

A trama de Limites traz um ensopado de lugares comuns a esse tipo de filme. Temos problemas paternos, personagens bagunçados e com hábitos peculiares, autodescobertas e um clima convidativo do começo ao fim. Desde a primeira cena, sabemos que a protagonista Laura (Vera Farmiga) evita seu pai Jack (Christopher Plummer) há tempos e que também tem o costume de adotar um novo animal de rua a cada dia. Ela cria seu único filho Henry (Lewis McDougall) em uma casa abarrotada de bichos, e o garoto também tem suas peculiaridades, desenhando nus bastante ousados de pessoas aleatórias de sua vida, o que o torna ainda mais desconectado entre os jovens do colegial.

Enquanto isso, Jack vive ligando para a filha, que o ignora regularmente. Porém, quando Laura se vê diante de dificuldades financeiras para colocar seu filho em uma nova instituição de ensino, após este ser expulso do colégio devido a um de seus desenhos, é ela quem telefona para o pai pedindo por sua ajuda. Jack atende, porém também passa por seus próprios problemas, tendo sido expulso de seu asilo por práticas mal vistas pela equipe de funcionários do lugar. Laura e Jack então fazem um trato: a filha levará o pai de carona em seu carro até a casa da irmã Jojo (Kristen Schaal) em Los Angeles. Mal sabe ela, no entanto, que o velho cultiva e trafica maconha e usará a viagem para fazer novos clientes.

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Limites segue a convencional estrutura do road movie americano. Acompanhados de Henry, Laura e Jack passam por altos e baixos enquanto viajam por uma série de locais, acumulando mais cachorros conforme param para visitar velhos conhecidos, que incluem nomes como Christopher Lloyd, Peter Fonda e Bobby Canavale. Mesmo que exista um conflito não-resolvido entre pai e filha, o roteiro de Feste prefere manter o drama em um nível mínimo, mesmo quando o segredo que Jack (em cumplicidade com seu neto) esconde é finalmente descoberto. O filme acaba sendo mais um passeio ao lado de um elenco agradável, o que pode decepcionar aqueles que esperam emoções mais pomposas de uma história sobre abandonos.

Não dá para negar que, de qualquer maneira, passar um tempo ao lado de excelentes intérpretes como Vera Farmiga e Christopher Plummer tenha seu apelo. Mais famosa por encarnar Lorraine Warren na franquia Invocação do Mal, Farmiga é sempre confiável independente dos requisitos de um papel: aqui, ela esbanja charme com o jeito desajustado porém muito sincero de sua personagem Laura, cujo coração de ouro a faz cair nas armadilhas de homens que constantemente a decepcionam. Seu carinho pelo filho também é palpável e reconfortante, convencendo como a mãe que faz tudo que pode para apoiar o garoto – as interações entre Farmiga e McDougall, que brilhou em Sete Minutos Depois da Meia-Noite, se dão com boa naturalidade.

Plummer, por sua vez, está cada vez mais à vontade com papéis que vão contra seu tipo. Se em Toda Forma de Amor ele construía a redescoberta de seu personagem na terceira idade com delicadeza, aqui em Limites o veterano investe em sua veia cômica ao encarnar o típico canalha amável, por vezes remetendo ao mesmo charme que tornou Jack Nicholson em um nome tão atribuído a esse tipo de escalação. Suas cenas ao lado de Farmiga são sempre agradáveis, mas são suas trocas com McDougall que se destacam mais, investindo na diferença geracional dos dois para tornar sua parceria no crime suficientemente inusitada.

De fato, o esforço do trio principal de atores é o que dá mais credibilidade a um material batido. Se Feste evidencia segurança na direção, no roteiro peca pela extrema previsibilidade e falta de originalidade. Por mais aconchegantes que sejam as quase duas horas de projeção, muitas das situações vistas parecem ser ou realmente são recicladas completamente de outras obras – o pai ausente encarnado por Plummer mente para a filha sobre estar sofrendo de um câncer terminal, muito como o também ausente Royal mentia para a ex-esposa Etheline sobre sua doença em Os Excêntricos Tenenbaums. Sem os talentos de Plummer e Farmiga para nos distrair disso, as semelhanças das duas cenas ficariam imediatamente aparentes, para o detrimento do material.

É clichê, mas funciona. Talvez esta seja a maneira mais direta de descrever Limites, uma sessão da tarde politicamente incorreta. Visto que os EUA estão em outro pé quanto ao discurso de legalização (e normalização) da maconha, não há nada de extremamente subversivo em sua proposta, mas será curioso observar quais circuitos a produção atingirá em solo nacional e qual será seu apelo com o público brasileiro. O que é certo é que Vera Farmiga e Christopher Plummer sempre fazem valer qualquer atenção direcionada aos projetos dos quais fazem parte, e o prazer de ver esses dois grandes talentos lado a lado eleva o que é, no papel, uma experiência limitada.

Limites
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