Diante de cada nova produção que reconstitui um marco histórico brasileiro, o que se espera, geralmente, é mais uma lição de história em formato de filme, correta e careta com as liberdades que o cinema proporciona. Minhas expectativas para O Paciente: O Caso Tancredo Neves não eram diferentes, já que seu diretor Sérgio Rezende foi responsável por projetos como Guerra de Canudos e Mauá: O Imperador e o Rei, daqueles que só são recomendados no colegial para o estudo de um certo tema. Para minha surpresa, o novo longa de Rezende é bem menos careta do que o esperado, embora “correto” ainda seja o termo mais adequado para descrever sua falta de riscos.

A história quase todos conhecem. Dias antes de tomar a posse como primeiro presidente eleito sob a nova constituição em 1985, Tancredo Neves (Othon Bastos) é vítima de uma enfermidade misteriosa e é internado. Aos 75 anos, o homem pode estar sofrendo de qualquer coisa: apendicite, divertículo ou outras coisas mais graves. Cabe ao time de médicos cirurgiões do Hospital de Base de Brasília descobrir a causa a tempo para que Neves não perca a cerimônia de posse, já que representa um ícone de esperança para a população após a repressão da ditadura. Sabe-se, no entanto, como tudo acabou: o homem nunca assumiu o posto de presidente, eventualmente sucumbindo às diversas complicações.

Com uma história dessas para contar, havia duas opções para o roteirista Gustavo Liptzein: ater-se aos fatos e situá-los sequencialmente e comportadamente, ou tomar grandes liberdades dramáticas e torná-la em uma versão fabricada e altamente especulativa. O roteirista, no caso, fica com a primeira opção. Com base no livro homônimo de Luís Mir, que compilava documentos e relatos para tecer sua narrativa, Liptzein não escolhe protagonistas e nem mesmo uma agenda. Focando na sequência de impasses médicos que alongaram a internação de Neves, o roteirista flerta com uma inusitada comédia de erros, embora não largue mão da chave dramática diante da gravidade da tensa situação.

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Mas como se pode criar tensão com uma história da qual todos já conhecem começo, meio e fim? O diretor Rezende tem uma tarefa difícil em mãos, e, diante dela, escolhe apoiar-se sobre a competência do texto de Liptzein e apostar numa abordagem segura e objetiva, tanto nas escolhas estéticas – materiais de arquivo preenchem lacunas – quanto na mise-en-scène – embora cômodos de hospital já não permitam arranjos de cena muito variados. Infelizmente, não há energia o suficiente na condução das cenas para que o filme crie impulso, e os momentos pontuais de humor seco acabam por surtir mais efeito que o drama. Rezende ainda tenta criar a ilusão de algum dinamismo com aqueles zooms de câmera típicos de um cineasta como Paul Greengrass, porém sem a mesma precisão do britânico.

Enquanto a direção não evoca a tensão pedida por um roteiro como esse, a montagem de Maria Rezende, de Como É Cruel Viver Assim, costura as situações com bom ritmo, também demonstrando timing adequado para os momentos de alívio cômico. Visto que se trata de uma adaptação de um livro documental, a montagem tem a tarefa similar de criar uma narrativa coesa a partir de acontecimentos soltos, porém com mais opções já que o roteiro de Liptzein traz diálogos que servem de ponte entre uma cena e outra – alguns deles eficientes, outros completamente desnecessários. O que mais agrada no formato, contudo, é o uso quase inexistente de música, preservando uma crueza que acaba sendo a segunda maior aliada do filme, depois do roteiro.

No caso, o terceiro maior aliado é o elenco estrelado, que mesmo com seus elos fracos, cria unidade em suas interações. Apesar de ser tão coadjuvante quanto seus colegas, Othon Bastos tem charme como Tancredo Neves, uma figura histórica que aqui é resumida como um homem cujas intenções nobres são injustiçadas pelo destino. Entre os médicos, destacam-se Leonardo Medeiros e Paulo Betti, que dá as caras apenas na segunda metade do filme – e inicialmente causa distração com seu penteado caricato. Na realidade, a interpretação de Medeiros evolui quando Betti entra em cena, e os dois possuem ótimas interações em meio à batalha de egos de seus cirurgiões. Otávio Müller, que está em cartaz com Benzinho, acaba ficando de fundo, junto de Leonardo Franco e Elcir de Souza como outros membros da equipe médica. Por fim, Esther Góes se segura no papel de Risoleta, esposa de Tancredo, que deixa o escanteio para assumir uma posição central na narrativa – destaca-se seu confronto com Betti ao final.

O Paciente: O Caso Tancredo Neves não é, de jeito algum, um filme marcante. Sérgio Rezende quer encerrar seu longa de maneira poderosa, lamentando pelo que poderia ter sido da posse de Tancredo e fazendo uso elevado da música para comunicar o luto do povo, porém tropeça na cafonice de certas escolhas, como os floreios do quase presidente sonhando com sua amada posse. Dito isso, é interessante ver um longa disposto a estudar um acontecimento marcante de nossa política de maneira tão objetiva, sem se preocupar com agendas ou paralelos à atualidade. Não há nada necessariamente errado com o filme de Rezende – no entanto, é por essa segurança toda que falha em impactar ou surpreender.

O Paciente: O Caso Tancredo Neves
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