Desde o anúncio de O Predador, novo filme do caçador alienígena da Fox, esperava-se um projeto no mínimo estranho. O retorno de Shane Black à franquia, desta vez como diretor e co-roteirista, não é uma total surpresa, já que o cineasta havia atuado no Predador original de John McTiernan. No entanto, seu elenco surpreendeu com nomes inesperados como Jacob Tremblay, Trevante Rhodes e Keegan-Michael Key no que seria, a princípio, um filme de ação e terror. Já os materiais de divulgação que vieram em seguida pareciam indecisos quanto ao tom, enredo e até mesmo nas escolhas visuais – é aí que entra o Super Predador, demonstração máxima de que talvez as ideias já estivessem esgotadas.

Infelizmente toda essa confusão que transpareceu durante a fase de divulgação reflete o resultado final, precário e bagunçado mesmo após diversas refilmagens encomendadas pelo próprio Black. Trata-se de uma catástrofe criativa a rivalizar com Jurassic World: Reino Ameaçado neste triste ano de 2018 para blockbusters, e é decepcionante ver que um cineasta como Black, que ganhou uma autoridade invejável ao longo de sua carreira recente, tenha cedido às necessidades de um estúdio para criar um produto que não entende o que tornava sua estrela, o Predador, tão especial.

Dito isso, o Predador nem começa tão mal. Logo após a queda da nave do alienígena titular, vários personagens e subtramas são estabelecidos em um ritmo acelerado, entre eles: Quinn McKenna (Boyd Holbrook), soldado que faz primeiro contato com o predador e rouba seus equipamentos; dra. Casey Brackett (Olivia Munn), especialista convocada para analisar o retorno do alienígena à Terra ao lado de Traeger (Sterling K. Brown); por fim, há Rory (Jacob Tremblay), filho de Quinn que apresenta grau elevado de autismo e cujo propósito na história fica mais claro posteriormente. O roteiro de Black e Fred Dekker consegue, de início, prender a atenção e equilibrar suas linhas narrativas. No entanto, os dois rapidamente perdem o rumo quando inserem personagens demais à mistura (o Super Predador entre eles) e mergulham no excesso, ao ponto de tornar o decorrer de seu filme quase indescritível.

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Ainda assim, O Predador é um produto realizado por Shane Black, ou seja, sua personalidade está obrigatoriamente imprimida sobre boa parte do projeto, para melhor ou pior. Na realidade, é difícil saber onde acabam as decisões de Black e começam as do comitê do estúdio, já que o estilo do cineasta ajudou a estabelecer fórmulas queridas em Hollywood: diálogos ágeis e cheios de tiradas, bad boys que celebram constantemente o quão incorretos são e personagens mirins precocemente inteligentes, entre outros toques. Porém nem todos esses elementos funcionam bem juntos, dependendo do foco do projeto no qual se encontram – e um bom filme do Predador não precisava de metade deles.

O humor é facilmente o elemento mais fora de lugar aqui, começando com as típicas tiradas sarcásticas de Black e depois partindo para a comédia de vez. Com a equipe de loucos formada por Nebraska (Trevante Rhodes), Coyle (Keegan-Michael Key), Baxley (Thomas Jane), Lynch (Alfie Allen) e Nettles (Augusto Aguilera), o diretor quer brincar com o elemento da insanidade e dar alguma justificativa à comicidade e talvez à crescente falta de coerência das situações, usando até mesmo a Síndrome de Tourette de Baxley para arrancar risos a qualquer custo. Essa propensão ao humor começa razoavelmente tolerável mas logo se torna irritante, deixando nenhum espaço sequer para o suspense e o medo. E por mais que o longa conte com diversos intérpretes carismáticos para garantir alguns sorrisos, o foco dos esforços deveria se encontrar sobre a figura ameaçadora do predador – ora, o título é dedicado a ele, e ainda com um prefixo para enfatizar sua importância. Nem a violência que o vilão provoca é capaz de chocar, já que os efeitos digitais fazem boa parte de suas vítimas parecerem contêineres de geleia.

Não só o alienígena dá as caras menos do que deveria, como Black ainda encontra uma maneira de dissipar a simplicidade misteriosa que o tornou tão ameaçador em sua primeira incursão aos cinemas. Se no longa de 1987 tínhamos uma compreensão natural e clara de sua agência e suas regras, transparecendo seu prazer de caçar sem que uma linha de diálogo (ou texto) fosse necessária, aqui temos a infelicidade de testemunhar uma trama atrapalhada que cria motivações forçadas para as voltas frequentes do vilão ao nosso planeta. São revelações que representam tanto uma tentativa forçada de comentar sobre questões ambientais atuais quanto uma justificativa barata para a produção de novas sequências e bonecos. Falando nisso, o gancho final choca pela completa falta de noção do que levaria alguém a querer uma franquia após um pontapé tão caótico e desequilibrado.

Em menos de duas horas, O Predador deixa de ser de uma galhofa ligeiramente divertida para se tornar numa experiência excessiva, cansativa e equivocada em suas escolhas de roteiro e direção. Mesmo que muito inferiores ao original, Predador 2 e Predadores entendiam o apelo de suas estrelas alienígenas, trazendo novas dinâmicas ao jogo de gato e rato sem grandes exageros ou invencionices. Diante de tantas decisões desconcertantes de Shane Black, Fred Dekker e o estúdio, este O Predador é um novo ponto baixo para a franquia, ficando atrás apenas do constrangedor Alien vs. Predador 2.

O Predador
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