Após o virtuosismo de Whiplash e o sucesso estrondoso de La La Land, muitos queriam saber para onde a jovem carreira de Damien Chazelle iria em seguida. Quando foi anunciado seu envolvimento com O Primeiro Homem, filme que adapta a vida de Neil Armstrong, esperava-se que a produção teria aquele mesmo clima de Velha Hollywood que Chazelle celebrou em seu musical ganhador do Oscar. Essa suposição, no entanto, não é refletida pelo resultado final, que representa uma grande – e ousada – mudança para o jovem cineasta, que novamente dirige o ator Ryan Gosling, desta vez no papel do primeiro homem a pisar na Lua.

O enredo de O Primeiro Homem baseou-se no livro homônimo de James R. Hansen, que documentava a sucessão de eventos pessoais e profissionais que culminaram na ida de Armstrong, com a Apollo 11, à Lua. Em sua adaptação, o roteirista Josh Singer emenda essas situações a partir de um ponto de vista mais íntimo, explorando o psicológico do astronauta. Logo em uma das cenas iniciais, somos pegos de surpresa: o primeiro grande acontecimento da trama é a morte de sua pequena filha, anos antes do pouso histórico. Este fato é transmitido de maneira sutil, silenciosa, mas contamina o resto da experiência como se estivéssemos dentro da mente do protagonista em luto.

De fato, a morte é um elemento recorrente em O Primeiro Homem, enfatizando a alta periculosidade enfrentada pelos oficiais da NASA, até mesmo durante a fase de treinamento. Ao longo do filme, Armstrong perde colegas e amigos em circunstâncias diferentes, algumas mais traumáticas que outras. Contudo, o protagonista normalmente reage às perdas de um jeito muito reservado, que pode ser facilmente confundido com apatia. Isso, na verdade, serve muito bem a uma proposta: a de mostrar fatalidades como meros ossos do ofício escolhido por Armstrong, que constrói uma barreira psicológica ao redor de si mesmo. Como consequência disso, alguns espectadores podem considerar O Primeiro Homem frio e insípido. Pessoalmente, acho uma escolha ousada e, no fim, recompensadora.


Por conta das emoções internalizadas de Armstrong, Ryan Gosling representa uma escolha mais do que adequada para o papel. No limiar entre o minimalismo e a inexpressividade, pode-se dizer que Gosling é uma representação viva do Efeito Kuleshov: suas expressões vagas permitem que o espectador projete suas próprias emoções sobre o ator, que age mais como condutor, e aqui surge outra variável em um filme cheio delas. Se as emoções vinham com mais facilidade nos filmes anteriores de Chazelle, O Primeiro Homem é o tipo de experiência que exige do espectador uma bagagem emocional para funcionar, ou, pelo menos, um esforço para simpatizar com a figura enigmática de Armstrong.

No papel da esposa Janet, Claire Foy surge como compasso emocional do filme. Premiada mais de uma vez por seu trabalho na série The Crown, Foy apresenta uma interpretação mais crua em O Primeiro Homem, que é fortalecida também pela maquiagem quase ausente – enquanto Neil está no espaço, Janet tem os pés firmes no chão. É ela também quem verbaliza e compartilha informações importantes com outros personagens e consequentemente o público, como na cena em que diz a Ed (Jason Clarke) que ela e Neil já são praticamente “especialistas em funerais” após o enterro de um dos colegas do marido, que antes foi piloto de avião e já viu muitos parceiros sucumbirem a acidentes de trabalho.

O que deve definir a experiência para muitos é o estilo escolhido pela direção de Chazelle, que aqui experimenta uma estética semidocumental semelhante à dos filmes de Paul Greengrass, com câmera na mão e zooms. O diretor geralmente opta por planos mais fechados, seja nos rostos dos atores ou objetos de importância, e esta escolha acaba sendo uma faca de dois gumes: enquanto se cria uma atmosfera íntima em certos momentos – a belíssima troca de olhares ao final -, em outros o trabalho de câmera de Linus Sandgren é equivocado, com tremidas e desfoques desnecessários – como os trechos no centro de comando. No entanto, durante os voos espaciais, a instabilidade da câmera serve para replicar o enjoo dos astronautas em situações de perigo.

Mesmo que o espectador tente evitar o mal-estar físico fechando seus olhos, o excelente trabalho sonoro significa que não há escapatória. Por se tratar de tecnologias mais antigas e rudimentares, os módulos espaciais criam uma ambientação angustiante, com peças metálicas rangendo e se dilatando como se fossem despedaçar a qualquer momento. O contraste entre o interior barulhento dos módulos e o silêncio do espaço também surte um efeito curioso, especialmente no momento em que Neil e Buzz Aldrin (Corey Stoll) se preparam para pisar na superfície lunar. Vale dizer também que, momentos antes, o que chama a atenção é a empolgante trilha de Justin Hurwitz, de La La Land, que segue uma estética clássica porém fazendo uso de instrumentos incomuns, como teremins.

Incomum, por fim, é a experiência proporcionada por O Primeiro Homem, que segue uma direção diferente de filmes como Apollo 13, Os Eleitos e Cowboys no Espaço, para nomear alguns. Enquanto estes equilibravam o desenvolvimento dos personagens com a importância de sua missão espacial, o longa de Chazelle está muito mais interessado na jornada interior de seu protagonista, algo que é reforçado na maneira banal com que o diretor retrata o primeiro passo de Armstrong na superfície lunar – foi um grande salto para a humanidade, mas antes disso um pequeno passo para o homem. Essa falta de grandiloquência pode surpreender alguns espectadores e deixá-los insatisfeitos, mas aqueles que se dispuserem vão encontrar uma beleza gratificante nessa viagem e, quem sabe, deixar a sala de cinema transformadas – assim como seus estômagos.