Não é de hoje que a Disney vem capitalizando em cima de seus maiores clássicos, procurando reconquistar um público através de sentimentos nostálgicos. Mary Poppins, no entanto, parecia estar entre um seleto grupo de produções realmente insuperáveis e portanto intocáveis. A ideia de um novo filme, portanto, soava um tanto fútil, já que o original se mantém forte na memória de qualquer que o tenha visto e até hoje surte seu efeito. Mas, como até mesmo O Rei Leão ganhará um remake, a existência de O Retorno de Mary Poppins já não é tão estranha.

Em meio à onda de remakes, reboots, reformulações e sequências que a Disney tem lançado nos últimos anos e ainda guarda para o futuro próximo, não sei exatamente onde O Retorno de Mary Poppins se encaixa. Por um lado, é uma sequência ambientada 26 anos depois de seu original, acompanhando os filhos do Sr. Banks já adultos. Por outro, o filme de Rob Marshall, segue uma estrutura tão semelhante -testada e segura – à do clássico de Robert Stevenson que poderia muito bem ser considerado como um remake. Nisso surge uma produção que agrada justamente por apostar no que é seguro e precioso aos fãs, sem audácias além de sua própria existência.

Trazendo uma mistura de elementos recorrentes em produções da Disney, O Retorno de Mary Poppins traz um Michael Banks (Ben Whishaw) que, pai de duas crianças e recém-viúvo (como o personagem de Matthew MacFadyen em O Quebra Nozes), se esqueceu da alegria de ser criança (Christopher Robin, cof cof) e está desesperado para manter a casa onde vive com os filhos e a irmã Jane (Emily Mortimer). É aí que entra a babá Mary Poppins (Emily Blunt), que desce das nuvens para proteger os Banks e ajudá-los com suas necessidades, restaurando o otimismo de todos eles nesses tempos difíceis – uma missão que claramente envolve muitos números musicais.


Apesar de mudanças ligeiras, é como se o diretor Rob Marshall e o roteirista David Magee (cujo nome parece pertencer ao mundo de Mary Poppins) soubessem que mexiam em território sacro, mantendo-se fiéis ao que fora feito na primeira adaptação da personagem de P.L. Travers ao cinema. No elenco, temos todos os mesmos tipos vistos em 1964: o pai que tenta dar conta de tudo, as crianças que descobrem um mundo de magia, o bancário corrompido pela ganância e até mesmo o homem das ruas com sotaque cockney acentuado. O enredo, então, caminha em um ritmo mais lento do que o habitual aos blockbusters atuais, como se fosse realizado para o público das antigas produções de estúdio – a duração quase bate as duas horas e vinte do original.

Justamente por essa dupla intenção de ser uma homenagem fidedigna e uma sequência ambientada duas décadas depois, O Retorno de Mary Poppins ganha e sofre. Se agrada aos espectadores já afeitos à produção anterior por suas referências internas, soltando nomes de personagens conhecidos aqui e ali, não deve ressoar da mesma maneira com o público ainda não introduzido – na sessão de imprensa, uma criança perguntava à mãe vez ou outra quem eram aqueles personagens e do que estavam falando. Além disso, se remete às produções musicais clássicas em seu ritmo mais cadenciado, pode também alienar ou mesmo entediar os jovens habituados a animações frenéticas – apenas um palpite.

Contudo, independente de seus vínculos com o longa precursor, O Retorno de Mary Poppins tem méritos e deméritos próprios. Emily Blunt e o impressionante elenco reunido dão o seu melhor ao material, independente da importância que seus personagens tem à trama. O destaque, a meu ver, é o sempre ótimo Ben Whishaw, cujo papel de maior destaque até hoje é o ursinho Paddington. Aqui, como o Sr. Banks da vez, Whishaw impressiona em sua capacidade de aliar um estilo de atuação natural a um material tão removido da realidade, e seu arco burocrático ganha mais força por causa de sua interpretação esforçada – a cena em que se desespera na frente dos filhos comove.

Já Blunt, com o trabalho pesado de suceder Julie Andrews, está sólida no papel título. Sem querer reinventar Poppins e mantendo a fala e os trejeitos extremamente polidos da babá, Blunt reforça a imutabilidade dessa figura, tida aqui como uma entidade que sabe-se lá porque voa ou nunca envelhece – “magia”, como tantos diriam. Completando o elenco, há o charmoso Lin-Manuel Miranda tentando sua versão do sotaque cockney, Colin Firth atuando contra o tipo como um banqueiro ganancioso e uma divertida Meryl Streep – cujo número musical soa gratuito, mas ainda assim é agradável pela presença da atriz.

Falando em números musicais, muitas das novas canções escritas por Marc Shaiman são simplesmente graciosas, nenhuma chegando ao nível da clássica Supercalifragilisticexpialidoucious mas ainda assim funcionando como um canal para as emoções de seus personagens. A ótima The Place Where Lost Things Go, que se repete três vezes ao longo do filme, é uma peça central para o arco dramático da família Banks, enquanto faixas como Trip a Little Light Fantastic e Can You Imagine That adocicam tudo como uma colherada de açúcar. Essas e muitas outras garantem que O Retorno de Mary Poppins será um prato cheio aos fãs de musicais no geral.

Porém tudo acaba um pouco limitado pela condução de Rob Marshall, que ganhou cada vez mais autoridade em Hollywood desde que seu musical Chicago fez a festa nos Oscars em 2003. Marshall, oriundo do teatro musical, não é tão eficiente em aliar uma coreografia de palco com uma linguagem cinematográfica mais dinâmica. Realizando números elaborados em espaços que mais parecem palcos muito bem montados, o cineasta erra a mão em sua decupagem, empregando um estilo multicâmera que deixa a ação obscura por insistir em planos fechados. Isso é gritante especialmente na segunda execução de Trip a Little Light Fantastic, com dezenas de ângulos diferentes que tornam a coreografia mais confusa.

Ao menos, Marshall extrai o melhor de seu elenco e entende muito bem o tom do material. Quando O Retorno de Mary Poppins chega a seu encerramento, com um número cafona envolvendo balões coloridos e uma tela verde mal-disfarçada, vê-se um raro filme de estúdio que se assume exatamente como é, sem a necessidade de comentar ou autodepreciar sua infantilidade e nem inseri-la em um contexto pós-moderno e cínico como tantas reformulações e sequências fazem. Aqui, a entrega diz respeito à encomenda, mesmo que esta encomenda seja basicamente um repeteco do que funciona (e não funciona mais) da obra original.