Idealmente, não daria pra culpar nenhum filme que parta de uma mensagem anti-bullying simplesmente por tocar no assunto. Acontece que isso nem sempre basta, já que certas produções, às vezes na intenção de fazer jus à temática, derrapam em uma série de etapas em sua abordagem. Embora seja, na superfície, mais uma comédia inofensiva e baseada na nostalgia, Eu Sou Mais Eu é outra dessas obras cujo maior tropeço se encontra na construção e entrega da mensagem.

Invertendo levemente a cartilha de De Repente 30, Eu Sou Mais Eu traz a influencer Kéfera Buchmann em seu terceiro papel nos cinemas, aqui como a popstar Camilla Mendes, uma sensação no estilo Anitta, mas sem a mesma relevância social ou carisma. Assim que Camilla, frívola e quase sem amigos, é abordada por uma estranha fã, é magicamente transportada para o ano de 2004, quando era apenas uma adolescente desajustada passando pelo campo minado conhecido como Ensino Médio. Para voltar ao presente, ela deve aprender a ser ela mesma e superar o medo da desaprovação.

Qualquer fórmula, apesar de já bem batida, pode funcionar sob uma condução que se propõe acrescentar algo de novo. Mesmo que acrescente um frouxo elemento de sátira à cultura pop, de hoje e 2004, e aposte em uma quantidade expressiva de linguagem chula, Eu Sou Mais Eu pouco renova as ideias das quais bebe. Sob a condução de Pedro Amorim e produzido pela Damasco Filmes, mesma de O Homem Perfeito e Minha Vida em Marte, a produção é tecnicamente competente mas sua trama se desenrola de forma mecânica, como se literalmente tirasse suas deixas de uma checklist.


Por conta da natureza esquemática do roteiro de L.G. Bayão e Angélica Lopes, o processo de aceitação de Camilla nunca soa tão sincero ou espontâneo quanto os roteiristas acreditam. Quando a protagonista retorna para 2004, as coisas que mudam mais radicalmente para ela são sua aparência e status, e por boa parte do longa Camilla persegue sua verdadeira identidade apenas para tomar essas “qualidades” de volta. Assim que descobre que esse não é o caminho correto, com a obra já bem próxima da conclusão, a garota parece magicamente mudar sua visão de mundo, após assistir ao amigo Cabeça ser caçoado em público.

Digo “magicamente” porque, além da fórmula estabelecida da qual o filme parte, não há nada que indique exatamente quando a protagonista passa a ter seu valor. Ela com certeza oscila entre diferentes atitudes ao longo da trama, mas defender seu amigo de uma humilhação não implica exatamente que deixou de pensar em diversas outras futilidades. Ou seja, como muito do que ocorre, é uma etapa que está lá apenas por respeito à fórmula, sem preocupação adicional com o sentido dramático ou narrativo. Fora que, quando retorna ao presente, redireciona sua carreira musical não produzindo faixas originais, mas cantando Máscara de Pitty num reconhecível Cine Joia. Portanto, o importante é ser… uma artista cover?

No entanto, o que chega a ser fatal para Eu Sou Mais Eu é sua falta de carisma. Não apenas a protagonista mantém seu ar de arrogância por tanto tempo, mas as poucas presenças gostáveis do longa não tem muito o que fazer. Arthur Kohl e Flávia Garrafa estão simpáticos como o avô e a mãe de Camilla, mas ganham menos cenas que o irritante arco na escola, onde apenas João Côrtes é capaz de provocar alguma empatia. Kéfera, por sua vez, mostra uma leve melhora como atriz, mas ainda não o suficiente para tornar Camilla numa presença mais tolerável – seu uso de uma expressão catatônica na fase “desajustada” também não ajuda, fazendo a antiga Camilla parecer só uma caricatura e não uma personagem tridimensional.

Algo que Eu Sou Mais Eu teria na manga é sua ambientação em 2004, mas as brincadeiras com o período são poucas. A mais perspicaz delas vem com a videolocadora na qual Cabeça faz seu bico, rendendo algumas piadas com o conhecido fim desse mercado e a dominação do streaming. Aparentemente os próprios roteiristas reconhecem que esta é a melhor sacada do longa, portanto fazem Camilla repeti-la mais umas quatro vezes, cada uma menos eficiente que a anterior. Fora isso, poucas sacadas dignas de nota, embora Ragatanga de Rouge seja trazida de volta à tona para cutucar nossa nostalgia – o que é mais um mérito do sucesso da própria música do que do filme em si.

O diretor Pedro Amorim, de Divórcio, faz um trabalho acima da média vista nessas produções, mas não conta com muita personalidade ou experimentação. A intenção parece ser a de replicar comédias dos anos 2000, e em alguns trechos há sucesso nisso: a briga na quadra do colégio, com planos em slow-motion e ao som de Mamonas, traz uma certa vibe anárquica comum às produções teen daquela época. Quem dera Amorim tivesse apenas atido às técnicas dessas produções, mas o diretor inclui desnecessários planos de drones e GoPros no meio que pouco acrescentam ao estabelecimento das cenas e, na tentativa de dar uma pegada atual, vão contra a proposta de nostalgia.

Não fosse pela evolução mal-estruturada da protagonista e a falta de carisma e identidade do projeto, Eu Sou Mais Eu poderia ter sido um tempo melhor aproveitado. Por outro lado, nada mudaria o fato de que tudo que o longa propõe já foi feito bem melhor em outras produções, nacionais inclusive – Coração de Cowboy, apesar das cafonices e falta de sutileza, trouxe a busca de um artista pop por uma identidade original com muito mais sinceridade, carinho e coerência. Ao final do longa com Kéfera, não há a sensação de se ter conhecido uma protagonista digna de atenção ou carinho e nem que a mesma tenha chegado a um destino sincero. No fim, não foi nem bizarro, bizarro, bizarro.