Nicole Kidman não cansa! A talentosíssima atriz entregou para o público nos últimos dois anos, um total de sete filmes, que vão de arrasa-quarteirões como Aquaman a obras exaltadas pela crítica como O Sacrifício do Cervo Sagrado e O Estranho que Nós Amamos. Sempre presente em festivais de cinema pelo mundo, e sendo cotada, praticamente, em todas as temporadas de premiações, além de ter alcançado enorme sucesso na televisão com a série multipremiada Big Little Lies, Nicole Kidman é das atrizes hollywoodianas que se encontram na prateleira mais alta dentro da grande indústria de cinema. E, agora com seu mais recente projeto O Peso do Passado, a atriz continua a desbravar com vivaz paixão seus predicados em frente à câmera.

A obra dirigida por Karyn Kusama narra a trajetória penosa de Erin Bell, uma detetive de polícia que no passado aceitou ser parte de um plano perigoso, infiltrando-se em uma gangue atrás de informações. Mas, os planos não saem como o esperado, deixando uma marca dolorosa para a vida toda. No presente, a detetive se depara com pistas que levam à mesma gangue que um dia foi parte, e assim recomeça sua busca incessante para se acertar com os fantasmas de seu passado.

Infelizmente, O Peso do Passado não está à altura de sua maior estrela. Dentro da filmografia da cineasta Karyn Kusama, é possível apontar apenas um grande acerto que foi seu filme de estreia Boa de Briga, que revelou Michelle Rodriguez para o mundo. Mesmo sendo um típico drama baseado em esportes, não faltaram habilidades, paixão ou firmeza em seu debute nas grandes telas. Mas, lamentavelmente, logo em seguida vêm dois pontos baixos: o equivocado Aeon Flux e o interessante em conceito, mas falho na transposição Garota Infernal. Já, sua nova obra não pertence à nenhuma destas duas colunas, talvez, seja possível dizer que ficaria entre estas.


Ainda assim, é transparente perceber que no cinema de Kusama, a mulher está no centro de tudo, e que estas personagens femininas são duras na queda. A detetive Erin Bell em O Peso do Passado não faz diferente! Porém, aqui entra um novo fator nestes trajetos vividos por estas mulheres: o tempo.

O Peso do Passado, mais que qualquer coisa, é sobre o enrijecimento do espírito humano diante à devastação sentida em um momento trágico na vida. Muito similar à Manchester à Beira-Mar de Kenneth Lonergan, lançado em 2016, que retrata a incapacidade, justificada, de conseguir seguir em frente. Não há dúvidas que ambos os filmes citados são tragédias, se considerarmos os gêneros dramáticos da Antiga Grécia. Assim, não é surpresa tais obras terem pouco ou quase nulo apelo do grande público, que não é muito apegado à ideia dos ‘feel bad movies’, em geral.

Com um roteiro irregular, muito afrouxado em sua primeira parte, mas que engata a terceira marcha, praticamente no centro da história em uma cena eletrizante de um assalto à banco, o longa de Kusama fica aquém da vitalidade de Nicole Kidman, em uma performance que se sai melhor no quesito da energia e vigor empregados, principalmente na segunda metade, do que na técnica. Ajudada por uma maquilagem assombrosa no tempo presente, junto à câmera de close-ups de Kusama, Kidman e o fardo de sua personagem são o pilar de O Peso do Passado.

Uma pena que o filme da diretora americana de origem japonesa cometa alguns deslizes pelo caminho, como a escalação da própria estrela, hoje com 51 anos de idade, para interpretar sua versão mais jovem, tipo fim dos 20/começo dos 30 anos, nas cenas de flashback; além de algumas caricaturas nada marcantes, exemplo as atuações de Toby Kebbell e Bradley Whitford.

Perto da resolução, há um ‘twist’ no enredo que certamente irá provocar reações variadas do público, alguns podem se sentir enganados, outros genuinamente surpreendidos. Seja como for, é certo que isto é o máximo que a obra de Karyn Kusama fará. Pois aqui, diferentemente da tragédia de Manchester à Beira-Mar, não existe maior reflexão.

No fim, O Peso do Passado é apenas sobre o sentimento de culpa que sua protagonista carrega durante toda uma vida, que a impede, inclusive, de ter uma relação saudável e carinhosa com sua própria filha. Uma protagonista forte e determinada, apenas em sobreviver, mas incapaz de viver.