Com o lançamento de A Grande Aposta em 2015, o cineasta Adam McKay deu o primeiro passo para se desvencilhar do rótulo de ‘aquele diretor que é amigo do Will Ferrell’, pelo grande sucesso de crítica que levou seu filme a ser indicado em cinco categorias no Oscar do ano seguinte. Verdade seja dita, a obra daquele ano era irregular, com dois bons méritos: uma boa performance de Steve Carell, e um bem-vindo didatismo explicando o que parecia inexplicável, a crise econômica que ocorreu em 2007/2008. Fora isso, A Grande Aposta não faz muito, principalmente no quesito vibração. Assim, surpreende o que Adam McKay fez com seu novo longa Vice, só que negativamente.

A mais recente obra de McKay que possui oito indicações ao Oscar a ser realizado no mês que vem, relata a história de vida de Dick Cheney, burocrata influente em Washington que cresceu até chegar a vice-presidência de George W. Bush, entre 2001 e 2009, tomando decisões que mudaram totalmente o cenário americano e mundial.

Infelizmente, Vice de McKay é um filme que quase nada faz, substancialmente falando, em prol de uma personalidade muito relevante na história recente. Isso não está atrelado com falar bem ou criticar à figura política que sempre foi vista como o titereiro por trás do presidente George W. Bush, mas pelo fato de que o longa que tem Cheney como seu protagonista é um enredo sem conflitos. O único conflito de Vice acontece antes de 10 minutos de projeção, quando sua esposa Lynne Cheney, interpretada por Amy Adams, roda à baiana bem de leve chamando a atenção de seu marido bebum e cobrando dele uma mudança de atitude na vida. E, parou por aí! Daí em diante, apenas suaves solavancos que serão resolvidos, ou com verborragia asséptica, ou na montagem “espertinha”.


Esse é o grande problema de Vice de Adam McKay: uma obra que tenta, forçadamente, fazer um ponto de vista, sabotando a si própria com muitos elementos que apenas reafirmam uma artificialidade que só danifica qualquer possibilidade de drama, e pior, também excluem, quase que integralmente, as chances de entretenimento do material.

Vale denotar que existem dois ou três momentos onde o espectador será surpreendido genuinamente por esses artifícios usados por McKay, mas estes são pontos mínimos, pois há truques demais dentro desta cartola, e o cineasta é o mágico que faz variados movimentos com os mãos, que sabemos é uma das mecânicas na prática do ilusionismo: distrair e enganar a plateia. Em Vice, McKay mexe as mãos mais do que uma família inteira de italianos à mesa de jantar!

Sendo uma comédia dramática biográfica, Vice acerta em partes só na última, já que é possível ter uma noção básica e superficial da carreira política de Dick Cheney. Mas, é de se lamentar que ao final do longa quando as luzes da sala acenderem, ficará a sensação de que sabe o que ele fez, mas não tem a menor ideia quem foi o mundialmente conhecido vice-presidente da era Bush. Desta maneira, temos um filme de humor fraco, sem qualquer impacto dramático, que toca em assuntos complexos como o ataque de 11 de Setembro, e a invasão no Iraque de maneira banal e esquecível.

Isso sem contar alguns equívocos absurdos, como o ator Shea Whigham sem qualquer maquilagem parecendo mais novo que Amy Adams, que faz o papel de sua filha na história, ou a admissão do uso de metalinguagem, que nem se fazia necessária, assim que sutileza não é um dos artifícios de McKay, em uma cena pós-créditos quando muitos já saíram da sala de cinema. Quase tão feio quanto o bebê falso em Sniper Americano!

Naturalmente, é necessário pontuar a atuação da ‘sanfona humana’ de Hollywood que é Christian Bale. Tecnicamente não é possível questionar o trabalho de Bale, ator famoso por suas transformações extremas. Porém lamentavelmente, os fatores ao redor, como roteiro e direção, limitam muito o talento selvagem do ator britânico. Deste modo, tudo o que Bale consegue executar é uma caricatura perfeita, com boa ajuda de maquilagem, mas que vai caducando ao longo da trama, até porque é uma performance de uma nota só, praticamente. Pois afinal, quantas vezes é possível contrair o lado esquerdo da boca em pouco mais de duas horas? Aí uma atividade mais interativa do que o próprio filme.

No elenco, de novo quem se sai melhor é o sempre competente Steve Carell. Já, a talentosa Amy Adams tem bom início, mas é escanteada na segunda metade do longa.

Em Vice, Adam McKay fica muito longe do melhor de seus talentos, vistos em Ricky Bobby – A Toda Velocidade, O Âncora 2: Tudo Por um Furo e o hilário Os Outros Caras, todos com Will Ferrell. Talvez, se quiser voltar a mostrar uma melhor forma, vale mandar aquela mensagem para o velho amigo dizendo – ‘oi sumido’.