Há muito para ver e discutir em Albatroz, novo longa-metragem dirigido por Daniel Augusto e roteirizado por Bráulio Mantovani, mas a atração principal é seu projeto estético audacioso, de um modo pouco visto em nosso cinema comercial. Imagens alteradas, uma montagem alucinada que quebra a linearidade e um desenho sonoro acentuado são aspectos que se complementam para entregar uma experiência sobretudo sensorial.

Nada mais justo, em um filme tão orgulhosamente dependente de sua plasticidade, que o foco de seu enredo seja no subconsciente de um fotógrafo, Simão (Alexandre Nero). Muito da confusa trama, que não arrisco explicar – dá para criar cinco sinopses diferentes e não fazer jus -, se ambienta nos confins de sua mente, mesmo antes do momento em que participa de um experimento que manipula suas memórias. A estruturação das cenas funciona como uma série de abas que se abrem dentro de uma consciência.

Estas abas, no caso, são ligadas pela escritora Alícia (Andréa Beltrão), que teve um laço amoroso com Simão em algum momento do passado, apegando-se aos menores resquícios de memória. Ainda que intermediadas por uma segunda pessoa, esses trechos todos são repletos de signos fortemente associados à psique de Simão, como a presença de mulheres intimidadoras, homens suspeitos de terrorismo e stills fotográficas que costuram a ação. Um adendo: o personagem ainda é sinestésico, capaz de ouvir e sentir cores.


Quando os elementos de ficção-científica surgem dentro do filme, embasados no contexto da neurociência atual mas tomando liberdades pelo bem do nosso entretenimento, as experimentações estéticas de Albatroz tornam-se mais fortes e recorrentes, algumas vezes se completando e em outras se anulando pelo excesso, mas sempre de forma fascinante. A sinestesia emulada de Simão, no caso, é o ponto alto desta loucura toda, tingindo a tela com cores hipersaturadas.

Ao todo, tudo é apresentado de jeito muito gráfico, desde a introdução acelerada que evoca Ilha das Flores, de Jorge Furtado, ao uso de stills que remete às fotonovelas monocromáticas de Chris Marker e a mescla de suspense policial e experimentalismo vista antes em filmes como Suspeito Zero, de E. Elias Merhige. Embora a originalidade da obra fique em cheque, o louco pastiche de tantas linguagens cria quase que um filme-mosaico, como assistíssemos diversos projetos de uma só vez. A experiência pode até ser exaustiva, mas não deixa de ser estimulante.

Em meio à loucura, o diretor Daniel Augusto demonstra um cuidado ímpar com a construção de suas cenas. Augusto aposta em uma decupagem extremamente específica de planos, dando atenção a rostos e objetos que distinguem cada uma das memórias de Simão, embaralhadas pela montagem de Fernando Stutz, que certas vezes deixa cenas vazarem uma na outra para aumentar a confusão. Sem este tipo de organização em cada cena, Albatroz poderia resultar como um todo intragável – dito isso, com certeza não será do gosto de muitos.

Somos, então, convidados a reorganizar estas memórias todas, da mesma forma que Alícia enumera e organiza as mesmas situações em um mural. Há diversas facetas para esta história, entre elas: romance, thriller de espionagem e ficção científica. Encontrar os pontos de conexão entre os diferentes gêneros é um exercício divertido, principalmente com uma plateia perplexa pelo que vê em tela – risos serão constantes, como um sinal de reação visceral, e naturais já que até Simão é tirado do sério pela implausibilidade dos eventos e revelações.

Seguindo a lógica de uma experimentação, o grande elenco também se despe de vergonha e se entrega habilmente à proposta, sem medo do exagero. O destaque fica por conta das mulheres: Camila Morgado, Andréa Beltrão, Maria Flor e Andreia Horta estão trabalhando com figuras muito bem marcadas, das quais cada uma parece surgir de uma faceta completamente diferente de Albatroz. São elas que conectam os tempos de Simão, e são elas que roubam cada uma das cenas.

Outro ponto a ser exaltado é o trabalho de mixagem sonora de Gustavo Garbato. Aqui, ele toma proveito de uma espacialidade detalhada, usando os diversos canais de áudio para criar uma ambiência forte às alucinações. Arrisco dizer que, sem o som rico, diversos momentos não atingiriam metade do efeito que surtem. Destaca-se a cena do orgasmo colorido, que chega a gerar aquela coceira no cérebro que os mais afeitos por ASMR conhecem como “tingles”.

Ainda com uma bela fotografia de Jacob Solitrenick, cujas luzes duras e coloridas dão uma qualidade pictórica até às imagens mais mundanas, Albatroz é o resultado da união entre liberdade criativa e um orçamento sólido, somados com a coragem de se apresentar em um formato fora da caixa. Apesar de se encerrar de forma um pouco fácil, no esquema de “era tudo coisa da sua cabeça”, e aproveitar pouquíssimo Marcelo Serrado em um papel misterioso, a louca viagem proposta pelo filme de Daniel Augusto deixa marcas, tanto na mente quanto de suor na testa de seus espectadores.