Já é sabida a cruzada que acontece no cenário audiovisual aqui no Brasil entre comediantes e humoristas contra a crítica especializada. Também é conhecido o fato de que um dos mais importantes atores daqui, o comediante Leandro Hassum é um destes que já pediu para a turma dos críticos pegarem mais leve, e ainda deu uma sugestão para que os mesmos assistissem aos filmes de comédia nacional junto do público para testemunharem as reações destes, que acredita aproveitam e curtem mais o material.

Algo similar feito pelo personagem de Johnny Depp na obra Em Busca da Terra do Nunca, que distribuiu algumas crianças nos assentos ao lado de adultos durante a peça de Peter Pan. O resultado: crianças contagiavam com alegria e leveza os adultos que se divertiam durante a peça.

Este ato realmente é capaz de comprovar a popularidade e apreço que existe por atores cômicos como Hassum, Fábio Porchat, Ingrid Guimarães, ou Paulo Gustavo e seus trabalhos. Mas, isso não redime do fato de que alguns dos materiais produzidos com os mesmos soem muito forçados, com “piadas” ou momentos cômicos todo o tempo, sem pausa; além de carimbar a carência do cenário nacional para televisão e cinema quando se fala de bons escritores para humor.


Chorar de Rir do diretor Toniko Melo nos apresenta Nilo Perequê, estrela do programa humorístico de televisão Chorar de Rir, que após levar um prêmio como melhor comediante em uma cerimônia, percebe que fazer comédia nunca fará que o levem a sério como ator. Desta maneira, Perequê decide deixar os risos para trás, e agora foca em se tornar um grande ator dramático dos teatros em uma adaptação de Hamlet, mas não imagina que um feitiço impedirá o próprio de fazer as pessoas se emocionarem com seu drama, ficando amaldiçoado pela habilidade da comédia a todo momento.

Existem dois problemas essenciais que jogam praticamente todo o material de Chorar de Rir, assim como outras comédias nacionais no fundo do poço: o texto rasteiro e a atuação de boa parte do elenco, artificial até para o humor e geralmente gritada como se o ator estivesse em um palco de um teatro. Neste último quesito, tanto Leandro Hassum quanto Paulo Gustavo são mestres, nas boas e nas más escolhas.

Começando pelo problema maior que é o texto, e dentro dele o tipo de humor intencionado. No caso da obra de Toniko Melo, o roteiro vagueia por diferentes tipos de humor: um pouco mais infantilizado, também um pouco mais ácido, com vulgaridades (palavrões), além de um pé no absurdo envolvendo feitiçaria, e assim por diante.

Todos estes tipos de humor, podem ser misturados na mesma panela. Só que no caso de Chorar de Rir, a deficiência ocorre pela falta de modulação destes elementos, ou seja, todos os personagens da trama, ou estão escandalosos, ou caricaturais, todos ao mesmo tempo. Tirando qualquer balanço para se notar e apreciar as tentativas de humor. Sim, o filme fica frenético e tem boa dinâmica, algo essencial para se praticar comédia? Sem dúvida, mas de que adianta isso se o valor do conteúdo do texto não consegue ser compreendido como um momento de ruptura, que é o que torna aquilo engraçado, levando aos risos e até gargalhadas.

E, não é possível deixar de lado o fato de que o longa de Toniko Melo copia, descaradamente, O Mentiroso de Tom Shadyac, sucesso dos anos 90 estrelando Jim Carrey, ator iniciado na comédia assim como Hassum. Também há mais duas “homenagens” a outros filmes em Chorar de Rir: Cantando na Chuva de Gene Kelly e Stanley Donen, e Os Irmãos Cara de Pau de John Landis. A primeira é dos momentos mais constrangedores da obra, infelizmente!

O único e isolado momento aonde o texto acerta o alvo acontece quando, sem exageros e usando de artifício visual, vemos os críticos aprisionados em uma embarcação desesperados para sair. Aqui, percebe-se a intenção com clareza, e a busca pela quebra que é capaz de gerar humor. Fora isso, lamentavelmente, nada mais conseguiu exprimir qualquer tipo de valor.

Se, as comédias nacionais quiserem ser mais levadas a “sério” por esta crítica especializada, definitivamente precisarão sair do lugar comum e não se deixar cair nos vícios do excesso, e fugir da emoção mais indesejada quando se pensa em um filme com o título Chorar de Rir: o puro tédio!