Dizem que no Brasil existem dois tipos de festivais de cinema: os normais e os de terror. Sim, aqui em terras tupiniquins como no mundo existe uma grande base de fãs deste gênero cinematográfico.

Aliás, vale lembrar que até 2010, números indicavam que o gênero que mais levou pessoas ao cinema na história foram os filmes de terror, apesar de a maior bilheteria de todos os tempos ser de Avatar que é um épico de ficção científica. Hoje em dia, isto talvez tenha alterado devido ao enorme sucesso de filmes baseados em super-heróis de quadrinhos, como Marvel e DC Comics. Ainda assim, este filão produz muito material que ainda lota salas de cinema, e até longas inócuos como Maligno de Nicholas McCarthy encontrarão seu público, eventualmente.

A obra de McCarthy nos apresenta, até demasiadamente, a vida da família Blume que começa a ficar preocupada com a mudança de comportamento e as atitudes violentas que seu filho Miles tem apresentado. Sarah, mãe do garoto, busca todo o tipo de ajuda para tentar entender o que está acontecendo com seu filho. Nesta busca, descobre-se que o menino pode estar sofrendo algum tipo de possessão que controla sua mente, aterrorizando ainda mais aqueles em volta do pequeno Miles.


Este é o terceiro longa do gênero dirigido por Nicholas McCarthy, se firmando como um cineasta que apenas tem interesse em criar e produzir obras nesta linha. Sendo esta sua terceira empreitada, é tranquilo afirmar que o próprio apresenta enormes dificuldades para dominar e entreter com o próprio gênero de escolha. E, é até difícil argumentar alguma defesa ao rolar dos créditos finais de Maligno.

Indo direto na gênese do problema maior que é o roteiro escrito por Jeff Buhler, que não consegue elaborar mistério por mais que cinco minutos, pois este mesmo se entrega em exposições que não são apenas muito óbvias, mas também descritivas, explicativas. Isto sim é um terror! Principalmente para o espectador, que ao assistir o longa conseguirá praticar um joguinho em sua mente de tentar adivinhar as falas dos personagens, ou os supostos momentos de susto, chamados de ‘jumpscares’, e certamente fará muitos pontos neste joguinho de adivinhação individual.

Assim, já que o texto faz o favor ao espectador de lembrá-lo onde ele está constantemente, deste modo não precisa se sentir culpado se desviar seus pensamentos para outro lugar e se perder, pois a obra de Nicholas McCarthy irá lhe dizer exatamente onde você está, e também para onde você vai. Sobram poucos elementos a serem trabalhados para o diretor que também não faz sua parte e faz algumas escolhas lamentáveis que arruínam qualquer possibilidade de estabelecer uma atmosfera mais incômoda para quem está sentado na poltrona.

Um destes horrorosos momentos de Nicholas McCarthy acontece quando o próprio tenta assustar com uma ideia que já não tinha funcionado como comédia no filme O Pequenino, estrelado pelos irmãos Wayans. Fosse uma escolha de narrativa ‘trash’ não seria um problema, mas levando na seriedade que foi o caso, torna-se apenas bizarro, e completamente fora de lugar.

Outra nota vermelha para o cineasta é o trabalho que fez sobre seu elenco que se encontra em estado de sono profundo por quase todo o tempo, sem reações verossímeis, havendo apenas dois momentos como exceções: uma cena dramática do pai no carro com o garoto no banco de trás; e uma performance harmoniosamente esquisita como um garoto possuído, que é interpretado por Jackson Robert Scott, o Georgie de It: A Coisa no “clímax” final de Maligno.

Mas, quem leva o prêmio de pior atuação no longa de terror é Taylor Schilling, mundialmente conhecida como a protagonista na série Orange Is the New Black. Sua personagem não parece ter reação de nada, e fica até complicado criar empatia com sua situação, tamanho é o desinteresse no que deixa de apresentar em cena. Como quando Sarah está em uma reunião com a psicóloga de Miles e um especialista em reencarnação. Que cena constrangedora!

Repleto de defeitos e com tantos desníveis fica impossível tirar qualquer proveito de uma obra como Maligno. Talvez, seja o caso do cineasta colocar a mente para trabalhar e se fazer uma perguntinha básica – ‘Será que é isto que eu deveria estar fazendo? Ou seria melhor eu cogitar explorar novos gêneros e narrativas?’. Todo mundo sairia ganhando.