Filmes que exploram a imaginação infantil garantem experiências lúdicas e livres de amarras, mas certas vezes correm o perigo de se tornarem um tanto inconsequentes demais. Enquanto Divertidamente, da Pixar, manteve as rédeas em sua representação das emoções internas de uma garotinha, sem esquecer do propósito narrativo, O Parque dos Sonhos perde seu ponto no meio de uma experiência hiperativa, ainda que deva tocar diversos espectadores por conta de sua mensagem direta de superação.

O ponto de partida de O Parque dos Sonhos é surpreendentemente pé-no-chão comparado com o que segue. June, uma garota de imaginação fértil, dedica seu tempo a construir o imaginário Parque dos Sonhos ao lado de sua mãe. Depois que a figura materna é acometida por uma doença e sai de casa para alguns meses de tratamento, June é tomada pelo pessimismo e esquece o parque, abandonando os prazeres da infância para se preparar diante de um futuro nebuloso.

Sua criação, no entanto, ganha vida própria neste período de stress, e a menina descobre isso após se separar da turma durante uma excursão da escola, sendo jogada numa dimensão fantástica. Lá, ela reencontra os personagens imaginários Greta, Boomer, Gus, Steve e Cooper. Porém o parque, antes colorido e cheio de vida, agora foi tomado pela Escuridão, e June deve se juntar aos amigos habitantes do parque para combatê-la e livrar o local da aura negativa, assim como resgatar seu principal funcionário, Peanut.


Julgando pelos momentos iniciais, há paralelos potentes entre a história real da garota e a aventura lúdica na qual embarca. Fica implícito que a mãe de June sofre de um câncer, deixando sua casa para seguir o processo de quimioterapia e expurgar a doença. June, enquanto isso, sai de casa para expelir suas preocupações e sua tristeza, representadas por uma nuvem / massa escura. O filme não diminui a gravidade da situação, mas convida seu público jovem a erguer a cabeça.

Outro mérito de Parque dos Sonhos está em sua capacidade de aliar um humor realista a essa narrativa terapêutica. Quando sua mãe está longe, June passa a se preocupar também com o pai, ao ponto de criar uma paranoia típica de uma visão de mundo em crescimento. Sua preocupação com o pai, sozinho em casa durante o passeio da escola, é externada de forma honesta e engraçada, com uma sucessão de imagens que mostram o ambiente de sua casa em deterioração, com garrafas e objetos acumuladas.

Porém, ao longo de sua jornada, o filme vai perdendo a força emblemática e passa a focar mais em entregar uma diversão colorida e desenfreada. Faz sentido, no caso, ter a aventura como uma válvula escape, mas aqui ela se torna hiperativa por períodos muito extensos, encaixando uma sequência de eventos alucinados que acabam não acrescentando muito. A falta de respiro também dá um ar repetitivo ao longa, que apesar disso passa voando com seus pouco mais de oitenta minutos. Uma montanha russa também precisa de subidas.

As personagens que habitam o parque também possuem pouca personalidade, e apenas alguns deles apresentam alguma característica definidora. No caso, essas características são usadas única e exclusivamente usadas para que situações cômicas ocorram aqui e ali. Como são criações da imaginação de uma criança, a superficialidade dessas figuras é compreensível, mas prejudica o vínculo que temos com elas ao longo da aventura. Despedir-se delas, portanto, também não tem o efeito emocional que se espera.

Para sustentar seu filme, os diretores David Feiss, Clare Killner e Robert Iscove adotam uma linguagem visual dinâmica sempre que podem, primeiro emulando técnicas mais habituais a filmes live-action durante o prólogo, como jump cuts e uma montagem fragmentada, e depois investindo em efeitos de distorção de lente e um uso acentuado da estereoscopia 3D para criar vertigem nos momentos de ação. O ponto alto fica por conta de uma surreal perseguição com um tobogã feito de canudinhos, na qual a criatividade visual do longa realmente aflora.

Ainda assim, quando O Parque dos Sonhos chega a seu final, a sensação é a de que havia uma ótima ideia para um ponto de partida e potencial, mas nenhum destino específico em mente. Apesar de fugir do sentimentalismo barato e manter as coisas realistas, o encerramento do longa não tem o grande impacto que a introdução promete, deixando a questão da doença da mãe de escanteio para que conclusões mais simples tomem conta. Não há problema na diversão leve e instantânea, mas também não há nada de muito marcante.