Em sua duradoura aventura como herói de ação, Liam Neeson experimentou um leque de diferentes projetos, sendo sua maior parceria a com Jaume Collet-Serra, dos divertidos Noite Sem Fim, Sem Escalas e O Passageiro. Ao que tudo indicava, Vingança a Sangue Frio, de Hans Petter Moland, tentaria seguir essa mesma linha de sucesso, mas mostra-se uma bola bem fora da curva – no bom sentido. Esta é mais uma comédia de humor negro com toques de thriller do que um longa de ação propriamente dito, devendo surpreender o espectador habituado à matança objetiva de projetos anteriores.

Remake do norueguês O Cidadão do Ano, também de Moland, o filme traz Nels Coxman (Neeson), motorista de trator e eleito cidadão do ano na cidadezinha de Kehoe, que perde o filho em circunstâncias misteriosas e, na busca por respostas, adentra o submundo do crime na região. Sem o conhecimento da esposa (Laura Dern, subaproveitada), ele caça os responsáveis pela morte do garoto, membros da máfia de Denver encabeçada por um homem conhecido apenas como Viking (Tom Bateman). No processo, acaba indiretamente causando uma guerra entre seus alvos e a máfia nativo-americana.

Para efeito cômico de comparação com papéis anteriores de Neeson, Coxman mata como um homem comum – demora para estrangular um homem até a morte, cansa e deita durante um confronto com outro. Mas apesar do elemento de humanidade, não há muita minúcia exigida nas execuções para quem espera um thriller de vingança pé-no-chão, já que Coxman identifica seus alvos rapidamente e parece nunca passar o perigo de ser flagrado. Sua esposa não se importa com seus negócios e, mesmo que seja o cidadão do ano, isso não lhe traz exposição alguma. Por conta dessa ironia, o primeiro ato é um deleite como fantasia cômica de vingança.


Isso segue até que o longa freia bruscamente para focar em mais de um núcleo narrativo, retratando a máquina do crime local em paralelo com a ação de policiais que tentam ligar os pontos entre as mortes. O filme pode ser considerado um suspense e não um thriller de ação devido à essa sua estrutura. Quando o longa deixa de acompanhar apenas Neeson, que praticamente some da projeção por longos instantes, a impressão que se tem é a de que vem aí uma grande surpresa, uma recompensa trágica no encontro entre tantas personagens coadjuvantes na busca de uma mesma coisa, da qual ninguém sairá ileso.

Porém nem todas essas linhas paralelas cruzam de maneira impactante, e já que todos dividem o mesmo filme, não ganham profundidade. As personagens mais interessantes são a ex-esposa do vilão e um guarda-costas do mesmo, que ainda assim recebem tanto destaque quanto a desinteressante dupla de policiais. Nota-se certa fraqueza na montagem, cuja má organização de cenas ainda gera desorientação quando passa entre espaços de cena muito semelhantes – montanhas nevadas, quase sempre. O ritmo também é desigual entre os três atos do longa, já que cai em um abismo ao final do primeiro e não se recupera totalmente a caminho da conclusão.

Como diretor, Hans Petter Moland destaca-se pelo bom controle de cena, que se reflete no trabalho com um humor seco e também nas interações entre o elenco, compondo cada situação do roteiro de Frank Baldwin – com base no texto original de Kim Fupz Aakeson – de forma que não soa nem óbvia, nem esforçada demais para ser peculiar. A visita de Nels e sua esposa ao necrotério para a identificação do filho acerta um equilíbrio entre peso dramático e constrangimento, preenchendo um tempo morto com o som de uma maca sendo erguida lentamente, assim como a conversa entre o guarda-costas e o filho do chefe sobre fantasy football surpreende pela eloquência e sensibilidade demonstrada por ambos.

Já a passagem da trama da pacífica Noruega para os EUA vem com seus próprios altos e baixos quanto à sua representação de um país mais racialmente diverso e politicamente dividido que o primeiro. A participação da gangue de indígenas, por exemplo, tem seus bons momentos, como os comentários sobre as reservas e uma piada envolvendo o aplicativo de avaliação Yelp, mas um trecho com a esposa asiática de um dos mafiosos e outro envolvendo um assassino profissional do gueto constrangem mais do que deveriam, mais por falta de tato em seus tratamentos dessas figuras do que exatamente mau-gosto.

Mas a mudança de solo ganha mais sentido quando vemos os letreiros que indicam cada uma das mortes, listando os nomes das vítimas com apelidos e símbolos representativos de suas religiões – desta vez mais variados pela ambientação nos EUA. Vingança a Sangue Frio termina por ser uma longa piada em andamento baseada nesses letreiros. Funciona como um sub-Irmãos Coens, por assim dizer, no ar tragicômico e farsesco dessas mortes que se acumulam, e tais letreiros enfatizam a escala absurda à qual a situação chega, levando a uma punchline espirituosa que ri e simultaneamente dá peso ao derramamento de sangue.