A grande maioria dos filmes documentais emprega ou até mesmo se apóia completamente no arranjo conhecido como talking head, “cabeça falante”, consistindo de uma câmera fixa que registra sem invencionices o depoimento dos entrevistados. Desde que a condução da entrevista e a história contada sejam boas, a técnica se garante em seu propósito de capturar um registro oral, e tais registros podem formar um quadro completo em conjunto. Bio: Construindo uma Vida, de Carlos Gerbase, depende inteiramente da eficiência conjunta de seus talking heads para manter sua história ficcional engrenando, e apesar de ousado como falso documentário, isso implica uma série de limitações cênicas e narrativas que o longa não se mostra capaz de superar.

Bio: Construindo uma Vida tem como premissa contar a história de um homem que viveu por mais de um século, desde o final da década de 1950 até a segunda metade do século XXI. Sem a explicação – até o final – de quem fez e como se deu este documentário gravado ao longo de centenas de anos, assistimos aos relatos de dezenas de pessoas que o conheceram ao longo de sua vida, sempre no esquema dos talking heads. A ideia é ambiciosa por si só: formar um rico panorama de uma vida através, quase que exclusivamente, da história oral destas pessoas. A recompensa, porém, não será fácil já que, se a encenação é simplificada, todo o resto terá que fazer seu trabalho em dobro.

O longa é segmentado por cartelas que indicam anos específicos que, por sua vez, dão lugar a acontecimentos chave da vida do misterioso protagonista, nunca visto pelo espectador. Apesar de soar demasiado repetitiva no papel, a estrutura escolhida pelo roteiro e pela montagem ajuda a manter um certo frescor às passagens, além de manter um ritmo interno coeso. A cada um dos anos, surge um novo trio entrevistados, cujos relatos vão de encontro um ao outro para formar uma grande anedota. A regra de três garante um certo suspense para cada passagem, principalmente quando não há relação inicial aparente entre os entrevistados, e a montagem, inclusive, antecipa futuros personagens com flashforwards tanto para esse fim quanto para facilitar nosso acompanhamento dessa teia da vida.


Para compensar a simplicidade da decupagem, que traz poucas variações visuais entre os relatos, o diretor Carlos Gerbase aposta em três fatores diferentes: as interpretações, a iluminação e a direção de arte. A entrega dos atores depende da caracterização e do semblante dos intérpretes, já que há um total de 39 entrevistados para o espectador manter em cheque – as interpretações oscilam, mas não comprometem. A iluminação, por sua vez, associa cada um deles a uma nova atmosfera, que muda de acordo com a passagem das décadas registradas e com a intimidade do relato. Já a direção de arte trabalha dentro dos limites do quadro em talking head e preenche o espaço negativo com cores, mobílias e objetos de cena que condigam com o universo de cada personagem.

O cuidado técnico, no entanto, não mascara a falta de insight posta na vida daquelas pessoas. O elenco variado e cheio de nomes talentosos – que vão de Marco Ricca a Maitê Proença – se limita à tarefa de falar do mesmo único personagem, nem sempre tendo o tempo de apresentar histórias próprias. Um dos relatos mais fortes, de uma estudante negra que se torna garota de programa para pagar sua faculdade, cria um paralelo incômodo com os privilégios colegas do protagonista, mas no fim serve apenas para estabelecer a natureza de garanhão do biografado, vista de forma sempre jocosa. O tratamento dado às mulheres, inclusive, é dos mais decepcionantes, já que se limitam, se não filhas, a amantes e esposas – a nudez feminina, então, é gratuita e fetichizada, dando um ar retrógrado de chanchada que nada acrescenta ao mote central esotérico.

Porém a maior fraqueza está na obsolescência da figura central. Desde o início, Bio: Construindo uma Vida pressupõe que “a história de uma vida pode ser tão longa quanto a história de uma espécie”. Essa suposição indica que o biografado não será qualquer ser humano, mas alguém especial. A expectativa, então, é a de que testemunhemos uma grande história, pontuada por feitos especiais e situações marcantes, o que acaba por não ser o caso. Além da incapacidade biológica de mentir e da descoberta de um planeta alienígena, trazida à tona no último ato, o legado de seu homem consiste em dormir com diversas mulheres e constituir diversas famílias. As memórias pessoais que deixou são essas. A história de uma vida, portanto, pode ser longa como de uma espécie, mas não necessariamente tão interessante quanto.