Surgida nos anos 30, a expressão filmes B resiste até os dias de hoje, mesmo com o fim na década de 50 do chamado ‘double feature’, no traduzido, exibição dupla. Com cinemas exibindo dois filmes pelo preço de um. Mas, o que estas produções tinham em comum para serem apresentadas em uma sessão dupla? Eram longas-metragens de baixo orçamento que visavam o cinema de massa, a grande audiência.

Equivocadamente tachados como produtos de má qualidade, os filmes B persistiram com o passar do tempo, e vez ou outra, entregam resultados incrivelmente satisfatórios. Em 2017, o terror de ficção científica Vida de Daniel Espinosa, que é uma cópia descarada de Alien – O 8º Passageiro de Ridley Scott demonstrou firmeza de pulso, além de energética dinâmica em um filme que te deixará tenso praticamente do começo ao fim; e ano passado, o ótimo Um Lugar Silencioso de John Krasinski fez o mesmo que o filme de Espinosa, e mais, ainda conseguiu tratar de maneira intrigante o tema paternidade, e encaixar uma crítica social arrojada e direta à América presidida por Donald Trump.

Assim, chegamos a The Silence, produção original da Netflix já disponível para os assinantes, que coincidentemente têm similaridades de enredo com a obra de John Krasinski. Porém, não possui a mesma sensibilidade e vigor do longa do ano anterior. E, também pouco convence na sua tentativa de apontar os males da sociedade, e principalmente, as organizações religiosas (com mais foco na igreja cristã).


The Silence do diretor John R. Leonetti nos revela um mundo sob ataque de criaturas horríveis saídas de uma caverna que caçam os humanos guiadas pelo som. Uma família busca refúgio em um abrigo remoto longe das grandes cidades. Contudo, na viagem eles descobrem um culto sinistro que almeja se aproveitar da garota da família.

É fácil perceber quais são as intenções de Leonetti com esta produção Netflix. Ainda assim, fica inevitável não reparar na pressa com que busca tais objetivos, praticamente compressos na meia hora final da trama, obra com menos de 90 minutos de duração. Sem contar que para isso, falha repetidamente em criar qualquer atmosfera hostil e crível por algumas escolhas feitas, e contraditoriamente mal arranjadas.

Começando pelas tais criaturas que viviam escondidas em alguma caverna em algum lugar dos Estados Unidos. De aparência que mais se assemelha a um tipo de morcego mutante, estas bestas selvagens foram batizadas de ‘vespas’ pelo modo como se agrupam para atacar. Só que quanto mais estas aparecem em tela (e como aparecem!), menos sente-se ameaçado por sua presença, apesar de testemunhar o que tais monstros conseguem fazer com o corpo humano. As cenas onde vemos centenas de milhares voando pelo céu são uma clara referência ao clássico Os Pássaros de Alfred Hitchcock.

Todavia, se pudermos escolher qual é o ponto mais baixo desta produção original Netflix, isso fica por conta da personagem vivida por Kiernan Shipka, protagonista da série O Mundo Sombrio de Sabrina, também do catálogo da provedora mundial via streaming. Fica difícil apontar o dedo apenas para a jovem atriz, sendo que roteiro e direção não a auxiliam como deveriam. Tanto que é muito complicado se convencer da surdez de sua personagem. Também pouco ajuda o fato de o elenco usar de linguagem de sinais, e depois sussurrar, aí falar normalmente, voltar à linguagem de sinais, falar em tom normal de novo … e os bichos voando baixo com uma audição supersensível prontos para atacar.

Isso atrapalha demais o ideal de imersão que geralmente são propostos em obras de terror. E, infelizmente isto se permeia por The Silence todo o tempo, que tenta, e falha toda vez, na tentativa de implantar qualquer drama ou catarse, quase sempre usando de câmera lenta, deixando o cineasta Zack Snyder muito orgulhoso.

Algo se salva no longa de Leonetti? Sim. É minimamente convincente o trabalho do ator Stanley Tucci em The Silence. Demora um pouco a se encontrar, mas rebola, e rebola e encontra um eixo que guiará toda a sua performance.

O veredito: a obra de produção original da Netflix encabeçada por John R. Leonetti não consegue amedrontar, sequer tensionar o espectador. Seja com os monstros aprisionados que agora voam pelos céus cercando suas presas terrestres, ou com o maior valentão de todos em nossa sociedade, a igreja cristã fanática.