Após um processo turbulento de reformulação, Hellboy ganha uma nova aventura nos cinemas. Nesta versão conduzida por Neil Marshall, que vem mais de uma década depois dos célebres filmes dirigidos por Guillermo Del Toro, a lógica seguida parece ser a do “mais é mais”, e tudo aqui é um aditivo válido. Muitos tons e elementos estranhos são misturados em um pacote só, e como uma mistura peculiar de alimentos experimentada por uma criança curiosa, o gosto pode inicialmente ser interessante, novo, mas o mesmo excesso pode levar ao vômito em questão de instantes.

Caso tomado conforme suas próprias intenções e esquecendo do tão almejado Hellboy 3 que Del Toro não conseguiu tirar do papel, o filme de Neil Marshall oferece uma experiência de fantasia que está contente em ser fora da caixa, mantendo-se em uma zona de desconforto a quase todo momento. Isso garante, independente de quão bagunçada seja sua trama e de quão superficiais sejam as relações das personagens, que a obra evite o comodismo e conquiste uma parcela de espectadores que se encontra na fadiga de outras produções de heróis e vilões.

Porém comodismo de menos nem sempre é algo positivo. Se o longa investe em ocasiões bizarras para alimentar – e esbanjar – a rica fantasia deste universo, o roteiro de Andrew Cosby, de Dose Dupla, é forçado a tomar uma série de concessões para acomodar tantas ideias e acontecimentos. A maior delas fica por conta de uma estrutura de atos mais tradicional, ou melhor, perceptível. O filme já abre chutando os portões de seu universo, desorientando-nos com tantos pontos de interesse, e não parece haver um objetivo linear para o herói até que a obra se aproxime da metade.


Sente-se que este filme é constituído de dois longos – e distintos – primeiros atos, seguidos de um curto meio e um clímax ainda mais breve, numa anomalia causada talvez mais pela montagem do que pelo trabalho de Cosby em si. Ainda que não haja problema em querer sair dos trilhos, tanto a narrativa quanto o ritmo saem prejudicados por este malabarismo. O primeiro dos “primeiros atos” é o mais feliz por não sucumbir ao peso de elementos narrativos passados, jogando Hellboy (David Harbour) direto na ação, combatendo monstros diversos em seu dia a dia, e apresentando a ameaça paralela da Rainha de Sangue (Milla Jovovich).

O segundo destes atos, no entanto, se vê sob a pressão de atender diversos propósitos, tentando dar continuidade aos muitos pontos introduzidos antes, ao finalmente colocar a vilã e seus capangas em ação, e ainda devendo apresentar o ambiente da agência BPRD, uma figura do passado de Hellboy que entrará na briga, um agente com motivações misteriosas e até possíveis conexões do diabão com a lenda do Rei Arthur. O resultado é um recheio que nunca é desinteressante, mas que carece urgentemente de foco, numa chicotada eterna entre uma coisa e outra que é de deixar qualquer um zonzo.

No apressado terço final, então, um enorme número de setpieces se acumulam uma sobre a outra, todas sustentadas por um enxuto orçamento de 50 milhões de dólares – para contextualizar, Shazam, um filme de escala mais modesta, foi realizado com o dobro disso. O diretor Neil Marshall, que destacou-se no terror de confinamento com Abismo do Medo e realizou outras obras mais pulp como Centurião e Doomsday, é feliz com a sanguinolência mas emprega algumas de suas piores tendências – planos muito fechados, muitos cortes – em uma produção que não dá – e devia dar – abertura ao seu melhor: visuais macabros e criação de atmosfera.

O bom elenco, que conta tanto com veteranos como Ian McShane e estrelas em ascensão como Sasha Lane, dá conta do que lhe é dado, mesmo em meio a tantos registros diferentes. Harbour, Jovovich e Stephen Graham, por exemplo, adotam um tom cartunesco e exagerado para suas personagens, sendo que o último encarna um Gruagach – um porco antropomórfico com um forte sotaque cockney, criado num trabalho impressionante de maquiagem e animatrônica. Já McShane, Lane e Daniel Dae Kim oferecem interpretações mais contidas, porém ainda alinhadas com o ludismo do resto. É até irônico que, no que é tido como um Hellboy sombrio e para maiores, o lúdico se encontre tão presente.

O que nos leva, por fim, ao porquê deste Hellboy soar tão desacertado. Não é segredo que, como ocorreu com o infame Esquadrão Suicida, o filme tenha enfrentado maus bocados em seu período de testes de público, e não há como saber no que sua visão original difere do que foi lançado este ano nos cinemas. Pode-se sentir, no entanto, que Hellboy foi de fato afetado por esta busca pelo maior número de espectadores possíveis, desde os gore-hounds, aos mais afeitos à sátira pop irônica de Deadpool, até os fãs de aventuras a la Jim Henson. Novamente, o gosto desta mistureba pode ser interessante por um tempo, mas sua digestão será penosa.