“O homem por trás do nome”. É o que dizem as divulgações do novo filme de Wagner de Assis, Kardec, que se propõe a explorar o momento em que o professor e escritor Hippolyte Léon Denizard Rivail assumiu a alcunha de Allan Kardec e dedicou-se à doutrina espírita, desde 1857. Para este tipo de biografia, especialmente uma que se vende nesta proposta de explorar um homem de outros tempos, há diversas armadilhas. Uma delas, a mais comum, é a verossimilhança do período retratado, a fim de recriar uma estética há muito passada. Outra armadilha, no entanto, se reserva à verossimilhança dos diálogos, pois deve-se encontrar um equilíbrio entre o uso do vocabulário correto e a espontaneidade de sua entrega e encenação.

Na primeira categoria, Kardec tem grande êxito. Sua recriação de uma Paris nos meados do século XIX é atenta aos detalhes, e embora não seja de uma robustez ao nível do que se vê em produções gringas, aparenta real e não, ora, uma recriação. Para esse resgate de outros tempos, são empregadas tanto técnicas de computação, para os planos aéreos e de contexto, quanto decorações práticas de diversos tipos, como carruagens, lampiões e placas penduradas para imagens ao nível do chão. A fotografia de Nonato Estrela procura valorizar a textura das imagens para tornar este passado palpável, mas também pictórico – o plano de Paris com os grandes moinhos de vento ao fundo é um apanhado de todas as qualidades visuais vistas na produção.

Quanto à segunda armadilha, o longa de Wagner já não é tão feliz e tropeça. O tom professoral que é mantido nos primeiros minutos anuncia a monotonia do resto que ainda virá. Não só os diálogos são extremamente auto-explicativos e redundantes, como são cadenciados ao máximo, fazendo-o soar como uma peça de teatro ou uma novela de época. Na introdução, somos apresentados a uma aula supostamente descontraída de Rivail (Leonardo Medeiros) em uma rígida escola católica, mas a natureza mecânica do texto já mina essa descontração, traindo o próprio propósito da cena em fazê-lo aparentar como um homem pouco tradicional. O maior propósito traído, no entanto, é o da verossimilhança, e já não há escapatória para a obra depois disso.


A artificialidade pode, de certa forma, ser atribuída à entrega dos atores, mas deve-se lembrar que este aspecto sempre se orienta pela direção. Levando em conta trabalhos passados do diretor e de seu elenco, que ainda conta com a ótima Sandra Corveloni, assume-se que o fardo seja da responsabilidade de Assis, preocupado desde o princípio em reverenciar o protagonista sem torná-lo necessariamente humano. Kardec, na verdade, já é cantado desde o início como um herói, mesmo quando ainda se encontra em dúvida sobre a doutrina que estudaria nos anos seguintes. O tema musical de Trevor Gureckis, repetido à exaustão, poderia ser confundido com um tema de super-heróis se feito com arranjos mais contemporâneos.

Um triste lado para tudo isso é notar que, além de maquiada, a história pode escolher nomes específicos e colocá-los acima de todos os outros que, em colaboração, atingiram um feito, especialmente se houver diferença de gênero. Isso, ao menos, o roteiro de Assis e L.G. Bayão reconhece. “Ele entrará para a história, eu não”, diz a médium que teve, assim como outros colaboradores de Kardec, se retirar por conta da pressão popular e clérica sobre os espíritas que se proclamaram em público. Ainda assim, se o longa não busca profundidade nem mesmo no homem que se propõe a desvendar, era de se esperar que o restante das personagens se limitasse a frases e tipos, e nada mais.

Kardec, o filme, ainda se vê prejudicado pelas outras escolhas de encenação de Assis, que inutilizam outros detalhes mais acertados. Embora os sets sejam requintados, não há uso inspirado do espaço cênico, isso quando não há equívocos. Um dos diálogos chave do longa, entre Kardec e o padre Boutin (Genésio de Barros), se dá em frente a uma contraluz exagerada, apagando o rosto de uma personagem ou outra sem propósito. Já no plano final, uma série de jump cuts quebra com a estética proposta pelo restante da obra. Outras escolhas, como retratar o espírito desencarnado de Kardec como um vulto azulado com contornos embranquecidos, soam datadas e involuntariamente cômicas ao afundar o registro histórico na artificialidade.

No fim, o filme de Assis parece realizado mais para angariar prestígio cinematográfico à doutrina que defende do que entregar uma biografia funcional que explore, realmente, “o homem por trás do nome”. Produções esquemáticas não faltam, e algumas ainda conseguem sucesso apesar de tudo, por vezes com um trabalho inspirado de direção e um elenco livre para experimentar dentro do que está proposto. Com Kardec, não há nada que eleve o resultado final em um nível dramático, apenas estético. A produção é de fato muito bela em seus aspectos visuais, e merece algum respeito pelos esforços de reaproximar não só uma época distante, como um solo estrangeiro ao nosso. Porém seu drama continua distante.