Está disponível para o assinante Netflix, sua mais nova produção original, o thriller gore The Perfection de Richard Shepard, estrelado por Allison Williams, que foi destaque dois anos atrás com o longa Corra! do cineasta Jordan Peele. Existem algumas semelhanças de estilo entre a obra de 2017 e o atual filme no catálogo da provedora mundial via streaming. Porém, curiosamente, o longa de Shepard consegue fazer melhor que Peele nesta produção que pode ser definida, simplesmente, como uma grata surpresa.

A obra de Richard Shepard, filho de pai judeu e mãe descendente da Armênia não harmoniza com suas origens, na trama que apresenta Charlotte, uma violoncelista virtuosa que vai em busca de Lizzie, a nova pupila talentosa de sua antiga escola, ainda sob a direção de seu mentor Anton. Este encontro vai levar a jornada das duas por um caminho sinistro de consequências surpreendentes.

É chocante imaginar que no rolar dos créditos finais de The Perfection, a sensação que permanece é de um tipo de sedução, só que perturbada. A obra de Shepard pode ser taxada como uma versão de Whiplash – Em Busca da Perfeição do diretor Damien Chazelle, que também possui uma clara carga sexual, só que com Chazelle, há maior atenção aos detalhes e nuance, enquanto o longa da Netflix é mais fetichista e abjeto.


Não é possível dizer que o diretor de The Perfection possui a mesma sensibilidade trocista de um autor de cinema como o holandês Paul Verhoeven. Não mesmo, está longe disso, porém, Shepard teve a mesma ousadia ao penetrar tal assunto sem receio de bater de frente com a ignobilidade humana em seu mais repugnante nível.

E mais, fez de um roteiro (escrito a seis mãos) com definidas exposições, algo de muito prazeroso, já que mesmo tendo uma noção desde o começo para onde o rumo da narrativa irá, nunca se sabe por qual caminho vai seguir. Tornando a jornada de The Perfection muito proveitosa, inesperada, além de vibrante com identidade capaz de cativar os amantes do gênero gore trash.

Dividido em três atos e um epílogo (ou quatro capítulos, cada um com seu título), a obra de produção original Netflix, de duração de apenas 90 minutos, simplesmente voa em seus dois atos iniciais. Sendo que no segundo, consegue a façanha tragicômica de retratar o incontrolável da vontade de ir ao banheiro de maneira agoniante e atraente aos apreciadores do grotesco na cena do ônibus viajando pelos campos chineses.

O mérito desta fluência, e da ideia de que ‘nem tudo o que parece é’ decorre em parte, da inventividade do roteiro, e a outra, via performance das atrizes desta produção Netflix. Tanto Allison Williams (com apenas dois filmes no currículo, mas ambos no campo do terror), quanto Logan Browning, protagonista da série original Netflix Cara Gente Branca, saem-se muito bem na obra de Richard Shepard.

A primeira, manteve o tom de deboche já visto em seu debute, estranhamente mais sutil em The Perfection, pois esta é uma obra mais apegada aos exageros que Corra!, fora que desfilou maior vigor em um enredo de plot-twists eficazes no contexto escolhido. Já, Logan Browning perambulou por duas áreas, como uma ‘scream queen’ típica de filmes de terror, para depois fechar a cara, ornando com o tema que se avistava no terceiro capítulo: vingança.

A atuação das duas, somadas a momentos inspirados (à parte um equívoco no epílogo) da direção de fotografia executada pelo croata Vanja Cernjul, que permitiu capturar todas as minúcias nas faces de suas atrizes, além de alguns planos muito iluminados, seja com a câmera parada ou em movimento, como por exemplo, a cena das duas garotas, uma descendo e a outra subindo as escadas. Juntando todos estes predicados, não surpreende imaginar que The Perfection, que não é perfeito, contudo, sabe aproveitar e narrar com clareza o enredo que têm em mãos. E, que deixou escapar um pouco algumas destas qualidades no capítulo final com diálogos mais pobres, mas sem perder sua personalidade.

Richard Shepard, que dirigiu um episódio da websérie antológica The Twilight Zone desenvolvida nesta nova versão por Jordan Peele (cineasta sensação do momento), não dispõe das mesmas complexidades de temas sociais que o diretor do recente e muito irregular Nós. Ainda assim, não lhe faltou criatividade, demonstrando mais pulso com seu material, e melhor domínio do cinema de gênero, de uma maneira que fica de fácil percepção à todos em uma história sem panfletos sobre empoderamento feminino tresloucado e algumas amputações.