Ao terminar de assistir Missão no Mar Vermelho, a mais nova produção original da Netflix, fica quase impossível não lembrar de Argo – filme de 2012 dirigido por Ben Affleck. Ambos os longas são dramas históricos baseados em fatos reais que mostram o resgate de um certo grupo – cada um com seu contexto – na tentativa de atravessar fronteiras pela sobrevivência. Todavia, as semelhanças param por aqui.

Pois, no competente e didático filme de Affleck houve um equilíbrio narrativo que oferece ao espectador a oportunidade de sentir variadas sensações, cada uma em seu momento. Diferente da obra de Gideon Raff que aborda um assunto muito mais delicado misturando gêneros e fios narrativos mirando a comoção, mas diluindo muito tal impacto intencionado por contradições expostas no enredo.

Missão no Mar Vermelho da Netflix nos apresenta fatos ocorridos no começo dos anos 80, onde um grupo de agentes internacionais que servem ao Mossad, a agência de inteligência israelense, e corajosos refugiados judeus etíopes usaram um pequeno resort à beira do Mar Vermelho como um meio de tirá-los do Sudão, e levá-los até Israel.


Ao ler a sinopse, percebe-se facilmente que o assunto tocado no filme de Gideon Raff é mais complexo que Argo de Ben Affleck, já que na obra de 2012 víamos em ação uma missão americana chefiada pela CIA, a agência de inteligência do país, tentando resgatar seis cidadãos que trabalhavam na embaixada americana em Teerã. Assim, o filme trata de específicos na relação política entre Estados Unidos e Irã.

Agora, o longa de Raff discorre sobre a crise de refugiados que acontece décadas a fio, que infelizmente ainda persiste nos dias atuais. Para se ter uma noção, pouco mais de 65 milhões de pessoas foram forçadas a se deslocar de suas vidas, por motivos de perseguição, conflito, violência ou violações de direitos humanos, apenas no ano de 2017.

E, em se tratando de tal tema, é de se lamentar que o roteirista e diretor de origem israelense tenha comentado este cenário de maneira tão afrouxada e incompatível com a complexidade e seriedade que merece.

Em alguns momentos a obra de Raff tenta – e falha – estabelecer um clima mais leve. Que no começo do filme não é um problema, pois acompanhamos Ari Levinson, protagonizado por Chris Evans – o eterno Capitão América – recrutando sua equipe de confiança para as missões de extração no Sudão. Porém, quando chegamos na parte central do longa, isso persiste, criando um clima muito ameno. Dá-se a impressão que estamos em um filme de comédia – e sem graça alguma – que pinça a vida dos turistas e funcionários de um singelo resort que fica no meio do deserto. Em resumo: Missão no Mar Vermelho tenta ser O Exótico Hotel Marigold em parte considerável do tempo.

Cenas de aula de mergulho no estonteante Mar Vermelho, aulas de dança, luaus com fogueira e violão, mostrando o elenco que é todo bem afeiçoado, desfilando pelas areias desérticas torsos definidos e belos decotes. Fosse uma propaganda de turismo, mereceria cinco estrelas.

Mas, não é.

Essa busca por contraste que mira entretenimento acaba por ficar completamente desconexa com o intento do material – que fica muito claro nas cenas finais do longa. Se isso não fosse o bastante, a direção de Gideon Raff também deixa vários parafusos soltos ao longo da trama. Faltou gana ao cineasta israelense. Muita!

Se acredita que o fato de Chris Evans ser parte do elenco, significa que terá boa ação. Vai acabar se frustrando. Se acredita que Missão no Mar Vermelho será um bom e vigoroso suspense. Mais um tiro na água!

A única cena realmente tensa que é capaz de fazer o assinante Netflix se inclinar na direção da tela com olhos arregalados acontece na parte final na cena do jantar. E, os méritos vão para o ator Chris Chalk – visto na ótima minissérie Olhos Que Condenam – que foi capaz de imbuir alguma fibra no indolente texto de Gideon Raff.

O cineasta que é o criador da série israelense Prisoners of War, que serviu de inspiração para a adaptação americana da aclamada série Homeland – Segurança Nacional, fez com Missão no Mar Vermelho seu terceiro longa-metragem na carreira – sendo que o último foi realizado onze anos atrás. Desta maneira, o jovem cineasta tem espaço e tempo para evoluir, e começar a usar ferramentas mais apropriadas para apertar alguns parafusos, e focar melhor no que almeja dizer ao público. Que foi o que acabou faltando aqui.