Inerente aos filmes que buscam relatar histórias verídicas, uma das principais diferenças entre documentário e dramaturgia está na relação que o cineasta assume com a informação. Se na primeira modalidade ele se vê principalmente ocupado com o arranjo e o rearranjo de informações, na segunda há o compromisso adicional de encená-las. O cineasta Joe Berlinger é conhecido por seus documentários criminais, fazendo seu nome com a trilogia Paradise Lost, cuja eficiência argumentativa permitiu mudar o curso do julgamento de três garotos acusados injustamente de um crime – só para exemplificar sua notoriedade no campo do documentário norte-americano recente.

Berlinger, no entanto, já não é tão feliz na dramaturgia, e com Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal seus créditos não melhoram muito. Lançado originalmente na Netflix como um prato paralelo à minissérie documental Conversas com Ted Bundy, também orquestrada por Berlinger, o longa busca contar a história do assassino em série Bundy (Zac Efron) de uma perspectiva mais íntima à sua namorada Liz Kendall (Lily Collins) e, de certa forma, a ele mesmo. Como se já não dependesse de algum conhecimento prévio do legado do assassino, portanto não se sustentando sozinha, a obra não é capaz de atingir frescor adicional apesar dos novos pontos de vista e informações adicionais.

Uma das grandes fraquezas deste longa está, desde o início, na fraca caracterização de personagens e seu mundo. O ritmo acelerado com que Berlinger salta por etapas importantes da vida amorosa de Liz e Ted não nos permite a sensação de conhecer seu dia a dia de fato, mesmo quando o casal se assenta como uma família – Liz já era uma mãe solteira quando o conheceu. Portanto, quando Ted é preso acusado de uma tentativa de estupro e é ligado a diversos assassinatos, não se sente grande desestabilização do núcleo familiar, e embora o longa estabeleça Liz como o ponto de vista do público em seu início, logo ele se torna em uma encenação apressada e sem foco dos dias de fama de Ted.


Desde este momento, Liz, que seria o fator diferencial desta nova exploração da história de Bundy, é relegada a uma coadjuvante de poucas dimensões, cujo alcoolismo rampante é simbolizado apenas pelas garrafas que se acumulam em sua sala de estar. O protagonista agora é Ted, que entre prisões e fugas tenta contornar o sistema judiciário para provar sua “inocência” dos crimes. Se antes Berlinger encenava de forma um pouco mais neutra, agora o cineasta passa a abusar de inserções musicais animadas que condizem com as situações vividas por Ted, como se o longa adentrasse de vez em sua consciência e se deixasse levar pelo narcisismo com que o assassino enxerga seus anseios e transgressões.

A decisão de Berlinger por ocultar os crimes e quaisquer imagens violentas até o final da obra, em uma pungente cena de interrogatório entre os ex-amantes, parece corroborar esta visão que Ted possui de si mesmo e permitir que a mesma domine o filme. Claro que, na realidade, o cineasta não aprova das atitudes do assassino, e talvez sua intenção não fosse a de glamourizar a figura de Bundy, que tornou-se massivamente irradiada através de seu julgamento televisionado na época, mas Berlinger acaba por ignorar um certo senso de moral que poderia permitir uma obra mais reflexiva, uma que talvez fosse mais a fundo na visão de Liz e a melancolia esmagadora que a jovem mulher enfrenta.

Mesmo dentro desta proposta, não há uma clara regra estabelecida por Berlinger quanto ao que mostrar ou não ao público – e como mostrar. Se a ideia era incitar a dúvida sobre a culpabilidade de Bundy, já vimos o bastante que a confirme, como os utensílios suspeitos no banco de trás de seu carro, o encontro com duas garotas logo antes de serem anunciadas como vítimas ou o conflito violento com um policial. Se o ponto era reforçar o quão convincente e portanto perigoso o assassino era, então a interpretação de Efron e os diálogos por ele entregues não exploram tão bem seu charme ou capacidade emotiva, com exceção de dois momentos ao final. Se o objetivo era provocar desilusão como a de Liz, isso também cai por terra.

Talvez melhor servido por uma sessão dupla com sua contraparte documental, Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal é uma obra sem ponto se consumida à parte. Como primeiro contato com a história de Bundy, parte das propostas apresentadas por Berlinger façam maior sentido, mas a abordagem se mostra perigosamente negligente neste aspecto também, já que pode deixar a impressão de suposta inocência. Como extensão ao estudo de Bundy, que basicamente ganhou uma aura e tornou-se obsessão midiática em solo norte-americano, o longa pouco acrescenta e muito menos critica. Fora pela fotografia de Brandon Trost, que ajuda na recriação de época com seu aspecto analógico, e uma Lily Collins amadurecida, não há nada de notório aqui.