Esteve claro, durante a maior parte da carreira de Luc Besson, que o cineasta francês possui o hábito quase impulsivo de resgatar elementos de seus filmes de maior sucesso ou repercussão na cultura pop, tais como Nikita, O Profissional e O Quinto Elemento. Apesar de alguns pontos fora do eixo como o bíblico Joana D’Arc ou as animações Arthur e os Minimoys, Besson se repetiu constantemente entre o thriller sexy de espionagem, o drama familiar interrompido pela violência e a ficção científica kitsch ao longo desta última década. Não fosse pela atual controvérsia que ronda sua vida pessoal e profissional, Anna: O Perigo Tem Nome seria o reinício deste mesmo ciclo.

Não há surpresa em constatar que Anna divide muitos pontos em comum com Nikita, longa com o qual Besson despontou ao mundo. Temos uma protagonista que, quase a contragosto, adentra o mundo da espionagem, temos as relações que entram em conflito com a natureza de sua profissão e, é claro, temos tiroteios e embates estilizados aqui e ali. No entanto, se em Valerian: A Cidade dos Mil Planetas o diretor apenas repetiu a cartilha de O Quinto Elemento dentro de um molde blockbuster mais genérico, aqui o francês diferencia sua nova obra daquela que a inspirou ao adotar uma estrutura narrativa não-linear, contada através de camadas que se ressignificam.

O truque de apresentar esta história, por outro lado convencional, como uma espécie de matrioshka, revelando novas motivações por debaixo dos feitos da protagonista Anna (Sasha Luss), dá para o gasto no sentido de sustentar um interesse contínuo por seu desenrolar, embora não eleve o restante dos aspectos em demonstração aqui, que oscilam entre a mera eficiência e a banalidade. Esta estrutura, na verdade, tem melhor efeito conforme o longa avança e confirma suas intenções de ludibriar o espectador a todo momento, já que infelizmente configura um ato introdutório que aparenta confuso entre temas e núcleos à primeira vista desconexos.


Claramente, a intenção de Besson é esta de situar o espectador em uma complexa teia que este não compreende, mas isso vem com uma grande perda: o devido envolvimento emocional com a protagonista, do início ao fim de sua jornada. Sabe-se desde sempre que há algo sendo omitido, que informações são apresentadas fora de ordem, e o afeto típico do diretor por algumas de suas melhores personagens aqui é diluído pela atmosfera incessante de suspense. Sem mais delongas, é justamente a conclusão que sai desfavorecida, sem oferecer grande catarse. Porém, se Anna: O Perigo Tem Nome for levado como o exercício de fumaça e espelhos que se propõe a ser, esta já se torna outra conversa.

Estilisticamente, esta obra é de fato a que mais se aproxima dos primeiros trabalhos de Besson, quando não estava ainda consumido por um uso ostensivo de CGI e conceitos cartunescos. Com uma pitada do cinema de ação clean visto nos longas John Wick, o diretor preserva uma espécie de estilização quase musical das lutas e tiroteios, faltando apenas usar da montagem paralela para resgatar memórias da luta ao som de ópera vista em O Quinto Elemento. Talvez devido a um orçamento limitado – a produtora EuropaCorp caminha rumo à falência -, Besson não arrisque se exceder no espetáculo, mas o que exibe aqui é decididamente competente e deve satisfazer aqueles que buscam socos e tiros.

No entanto, se o cineasta está em casa com a pancadaria em um bom sentido, seu imaginário romântico / sexual é infelizmente também acomodado, fazendo de Anna uma protagonista dividida entre toques atuais e outros muito mais datados. Pode muito bem ser proposital, como uma forma de anunciar uma enganação, mas seu envolvimento romântico com não um, mas dois homens mais velhos durante a trama soa como um artifício já bastante inadequado para os tempos atuais. Enquanto isso, sua namorada modelo é reduzida quase que a objeto de cena, surgindo pontualmente para transformar em mero fetiche a relação lésbica – equívoco que ocorreu também com a personagem de Sofia Boutella em Atômica.

Muito se fala, em Anna: O Perigo Tem Nome, sobre a busca da protagonista por autonomia, por liberdade, mas mantém-se o gosto amargo de que nenhuma das personagens de Besson é realmente autônoma sob o olhar do diretor. Talvez seja ele mesmo que busque sua própria catarse, ao custo do desenvolvimento espontâneo da personagem. Não à toa, o cineasta sempre traçou uma linha entre homens bons e ruins em sua filmografia, aqueles dignos do amor da jovem heroína e outros que merecem apenas uma bela surra. O exercício narrativo e estilístico de sua nova obra é divertido, mesmo demandando paciência, mas debaixo desta matrioshka há apenas sugestões incômodas sobre os reais interesses de seu diretor.