Certamente, em algum momento, muitos entre nós compraram aquele cartão bonito, geralmente cheio de corações de variados tamanhos e, na parte interna aquele escrito que diz “Feliz Dia das Mães. Você é a melhor mãe do mundo. Te amo!”. Claro, que quando uma mãe ganha isto de um filho ou filha, quando estes ainda são pequenos, isto é um grande afago no íntimo destas mulheres que nos criam com tanto carinho e dedicação. Já na fase adulta, entregar um cartão com estes dizeres, ainda é um sinal de afeição, porém, a vida adulta é muito mais complicada do que este gesto de cordialidade protocolar para com estas mulheres que amamos, cada um à sua maneira.

Pena que a nova produção original da Netflix, o longa Mãe e muito mais com direção debutante de Cindy Chupack não parece compreender este conceito, já que a maioria de suas personagens, sejam as mães ou seus filhos homens, soam um tanto quanto imaturos demais e, insípidos demais também.

Estrelando um trio peso-pesado constituído por Angela Bassett, Patricia Arquette e Felicity Huffman – a última, recentemente presa sob acusações de suborno no escândalo das universidades americanas – figuram três mães na faixa da meia-idade que decidem espontaneamente viajar até Nova York com a intenção de surpreender seus filhos que esqueceram de parabenizá-las no Dia das Mães. Nessa jornada, se deparam com a distância que existe entre todos envolvidos e, percebem que algumas coisas devem mudar nesta relação pelo bem geral.


A diretora de primeira viagem Cindy Chupack, pode ser inexperiente – e mostrou isso – na nova função, mas já é calejada na parte da escrita, como uma das roteiristas principais nas séries Sex and the City e Modern Family. Assim, é entristecedor que seus personagens no filme Mãe e muito mais, na grande parte, não conseguem escapar do trivial e, ainda reforçam um conceito de mulheres de mais idade que agem de forma pueril quando não são capazes de emendar suas relações. Ainda se o fizessem com humor – mesmo que escrachado em exageros vistos por alguns olhos como difamatórios – como a boa comédia Perfeita é a Mãe!, isto traria algo de energia ao filme de Chupack, mas nem isso conseguiu fazer. A obra disponível ao assinante Netflix é só uma “comédia” flácida e sem sabor algum, como As Trapaceiras, lançado recentemente nas salas de cinema.

A trama gira, gira, gira para no final as mães conseguirem exatamente o que querem de suas crias, que se dobram naturalmente à elas – exceção ao personagem interpretado por Jake Lacy – ou a qualquer outra figura feminina que houver. Mães controladoras, filhos subordinados. Perfeitos um para o outro.

Não bastasse o texto de Chupack limitar seu elenco, o mesmo têm dificuldades de emanar brilho próprio. Talvez, a única que consiga algo mais fibroso seja a estonteante Angela Bassett – que surpreendentemente não aparenta seus sessenta anos de idade.

Lastimável, até porque haviam alguns elementos interessantes em algumas destas relações, que são tratados na superficialidade, ou escorregam para caricaturas que diluem quaisquer valores dramáticos sejam. Se for possível definir entre as três relações mãe/filho qual é a melhorzinha, esta seria entre Helen e Paul. Mas, desagradável é a sensação que fica ao testemunharmos Felicity Huffman sempre ir pelo caminho da mãe sofrida à la novelas mexicanas, chorando copiosamente no restaurante, no sofá, nos lençóis brancos da cama, e onde mais for …

Agora, o pior relacionamento entre mãe e filho cai na conta de Gillian e Daniel, papéis de Patricia Arquette e Jake Hoffman, respectivamente. Em Mãe e muito mais da Netflix, a atriz vencedora do Oscar em 2015 pelo ótimo drama coming-of-age Boyhood – Da Infância à Juventude não poderia estar mais distante do papel da mãe do garoto Mason no épico dirigido por Richard Linklater. Lá, havia naturalismo e nuances, já aqui, a talentosa Arquette mal consegue estimular qualquer pulso em sua atuação e, para se ter ideia, a performance de Hoffman consegue ser ainda mais errônea, praticamente uma canção de uma nota só por toda a história.

Infelizmente, a mais nova produção “cômica” da Netflix que se encontra disponível ao assinante não desvia do básico e, não consegue instigar qualquer emoção. A única coisa que fica na memória após o fim do filme é a constatação do desperdício do talento cativante de três atrizes de maior calibre. Bassett, Arquette e Huffman merecem mais … e as mães também.