A cada cinebiografia de um grande músico brasileiro lançada, cresce o sentimento de que grandes oportunidades são desperdiçadas. O mais novo capítulo da safra, Simonal, é dirigido pelo estreante Leonardo Domingues e tem em mãos a fascinante história de Wilson Simonal, conhecido como o Rei do Suingue durante a década de 60 no Rio de Janeiro. Considerado como o primeiro grande pop star negro no Brasil, ele também foi acusado como dedo-duro para a Ditadura Militar, o que o levou ao ostracismo. Claro que há grandes entrelinhas para estas três afirmações anteriores, porém é uma pena que o longa de Domingues gaste boa parte de seu tempo como uma biografia genérica e apressada, deixando de desenvolvê-las.

Para toda boa ideia que Domingues inclui no projeto, prometendo elevá-lo para além de suas contrapartes – tudo parece compor um sutil universo cinematográfico, com escolhas similares de registro -, há aqui grandes fragilidades que não estavam presentes, por exemplo, no meramente competente Minha Fama de Mau. Enquanto em Simonal o uso de dois ótimos planos-sequência expõe um talento de Domingues em criar cenas de fluxo, em locações intricadas e repletas de vida, a escolha pela dublagem das faixas nas apresentações do cantor, interpretado por Fabrício Boliveira, destaca-se negativamente pela diferença gritante na qualidade e na mixagem do som, que pelo visto carece de uma remasterização a par da proposta.

Repara-se, na mesma medida, a falta de um arco sólido no roteiro de Victor Atherino. Como em projetos similares, aqui os acontecimentos se amontoam, assim como os hits de sucesso. Qual o duro que Simonal deu? Isso é deixado como lacuna a ser preenchida pelo espectador, já que o protagonista se vê rapidamente na posição de astro após um ou dois encontros com o produtor Carlos Imperial (Leandro Hassum) e residindo com a esposa Tereza (Ísis Valverde) em uma enorme casa. A falta de detalhamento neste período da ascensão mina trechos futuros do longa, como as tensões pessoais e políticas que surgem após uma homenagem do cantor a Martin Luther King ou a queda do topo após o envolvimento com o DOPS.


As tensões raciais, que apenas se fazem presentes pela metade do projeto, são pouco cozinhadas no roteiro de Atherino. Se, por exemplo, Simonal usou da homenagem a King para atestar sua consciência racial e trazer à superfície questões que antes o impediam de conquistar novas posições na sociedade, principalmente na classe artística, a raça é raramente abordada em sua trajetória inicial no longa, de tão ansioso que é para chegar ao período de fama e luxos. O recorte, então, mostra-se indeciso já que não há espaço para nenhum tema específico ressoar, diferentemente, por exemplo, do envolvente e subestimado Legalize Já: Amizade Nunca Morre, cuja carga problematizadora se fazia presente do primeiro ao último minuto.

Por outro lado, se em momentos específicos, como os supracitados planos-sequência, a recriação de época se mostra hábil e atenciosa, falta a Simonal outro fator que poderia tê-lo elevado e que geralmente falta às nossas cinebiografias: atmosfera. Tomando boa parte de seu tempo nos anos finais da década de 60, o longa busca o sentimento da época através de frases feitas – “esta é uma época de transição”-, atuações maneiristas de quase todo o elenco – Hassum exagera no “jeitinho malandro” – e pontas mal-posicionadas, inconsequentes ao resto da narrativa – como Elis, Erasmo Carlos e principalmente Jorge Ben-Jor. Novamente, como no mal-ajambrado Chacrinha: O Velho Guerreiro, tudo acaba por ganhar ares fortes de faz-de-conta.

Simonal ao menos ganha consistência temática em seu último ato, relatando o contato problemático do cantor com um detetive do DOPS, Santana (Caco Ciocler), após suspeitas infundadas de que um de seus funcionários estaria realizando um golpe financeiro em sua empresa Simonal Produções. A vítima foi sequestrada a mando de Simonal e torturada por Santana e outros oficiais, e o caso inevitavelmente veio a público. O longa de Domingues traz alguma tensão mais palpável quando aborda esta faceta, e apesar de ignorar a liberdade restrita da imprensa na época – manchetes de jornais são destacadas e criticam em termos abertos a ditadura vigente – cria impulso dramático modesto em direção à sua conhecida queda.

Os reflexos desta “traição” de Simonal, rapidamente associado pela classe artística a outras delações a favor da ditadura – o longa deixa em aberto se o contato com o DOPS se deu apenas por motivos financeiros ou também políticos -, são evocados com uma sensibilidade dramática pouco presente no restante da obra. O longo plano ao final, que contorna a figura de Simonal enquanto este canta para um auditório vazio, quer atestar a tragédia de um astro pop que cantava para todos e que, por conta de um equívoco grosseiro, passou a cantar para ninguém pelo restante de sua carreira. Suas criações foram finalmente resgatadas, mas talvez não o seu brilho alegre. É um momento melancólico dos mais belos em um longa essencialmente pedestre.