Desde que teve início em 2001, a franquia Velozes e Furiosos trilhou um caminho inimaginável. Com constantes renovações, que vinham desde a mudança de local para Tóquio com o terceiro capítulo e a chave mais exagerada adotada desde o quinto longa da série, provavelmente seu melhor até hoje, a história de uma gangue de corredores de rua tornou-se matéria de cinema blockbuster que faz inveja até em James Bond por sua sensibilidade extravagante e juvenil. Com isso, “quanto mais idiota, melhor” ficou como uma espécie de máxima infalível aos filmes estrelados por Vin Diesel, pelo falecido Paul Walker, e mais recentemente por Dwayne “The Rock” Johnson e Jason Statham.

Depois de oito longas com resultados variáveis, essa máxima é uma vez desafiada com a chegada de Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw aos cinemas. Há um apelo inusitado para o projeto, que introduz super-homens, comédia pastelão e tradições tribais à fórmula geralmente constituída por carros rápidos e dinâmica de polícia e ladrão, mas a tolice aqui atinge seu limite sob o comando do diretor David Leitch e os roteiristas Chris Morgan, que como Benjamin Button parece “rejuvenescer” a cada capítulo que escreve, e Drew Pearce (Hotel Artemis). Sobram piadas inconsistentes e explicações de tramas nonsense de dominação mundial, faltam a empolgação e impacto visceral típicos da franquia.

Enquanto diretores como Justin Lin e James Wan tiravam da falta de vergonha as possibilidades de elevar seus filmes a um novo patamar, aqui ela quase sai pela culatra nas mãos de Leitch, que não sabe muito bem o que fazer com todas as ideias ensandecidas que Morgan e Pearce apenas inserem e não desenvolvem no roteiro. Inclusive, perde-se muito tempo comentando contextos e relações fracas durante as mais de duas horas de tela, mais complicando o caminho para as cenas de ação e pancadaria do que favorecendo uma fluidez agradável entre cada uma delas. Nada deste lenga-lenga é capaz de esconder o fato de que a trama é um fiapo, um que não pede por uma minutagem tão excessiva.


The Rock e Statham, carismáticos como são nos papéis respectivos de Luke Hobbs e Deckard Shaw, recebem o trabalho de segurar a inflada duração nas costas, com apoio valoroso de Vanessa Kirby (Missão Impossível: Efeito Fallout), que aqui interpreta Hattie Shaw, irmã de Deckard. Como é prometido nas divulgações, Hobbs e Shaw passam boa parte desta aventura trocando farpas no intuito de trazer carga cômica ao longa, mas o prazer de vê-los juntos em cena passa a ser diluído pelo excesso com que essa estratégia é usada e pelo fraco script, que deixa a eles o dever de encontrar um timing improvisado que mascare a falta de criatividade do material.

Enquanto isso, o vilão Brixton (Idris Elba) e tudo que vem com ele – a trama de uma seita tecnológica no estilo Illuminati para dominar o mundo com um vírus – nunca engatam. Elba raramente muda o tom e tira diálogos tediosos direto da cartilha vilanesca enquanto não é representado por um boneco de computação gráfica em trechos de ação mais espetacular. Seus poderes, inclusive, surtem pouquíssimo efeito sobre a pancadaria, fora pelos momentos em que é digitalmente substituído – sua moto é cool, admito. As trocas de soco com Hobbs e Shaw não transparecem nenhum perigo adicional, já que Brixton pode ser derrubado com cabeçadas e cotoveladas.

A falta de grandes cenas de ação, marca registrada de Velozes e Furiosos, é aliás o que mais frustra neste derivado. Considerando a passagem do diretor Leitch pela produção do primeiro John Wick e sua execução do excelente plano sequência em Atômica, é no mínimo entristecedor vê-lo se assentar na mera competência, como fez com as lutas e perseguições de Deadpool 2. Enquanto ele ainda mantém suas noções de decupagem de ação intactas, por mais que este estilo de planos fechados e médios não funcione para uma tela IMAX, Leitch tem dificuldades em criar sequências carregadas de CGI que sejam atraentes ou vibrantes – seu uso constante de uma paleta cinzenta também não ajuda.

Acima de tudo, o propósito de Velozes e Furiosos: Hobbs & Shaw parece ser o de provar a elasticidade da franquia. Este é, afinal, o primeiro derivado da série e já conta com diversas pontas de personagens pré-existentes e outros rostos completamente inéditos, inclusos aqui como fator surpresa – e como portas para outras iterações. Os conceitos e relações aqui apresentados pouco fazem sentido se considerarmos a trajetória dos filmes, mas este claramente não é o objetivo. Contudo, se a disposição da franquia em explorar novos territórios é louvável, é uma pena que aqui ela siga com este objetivo da forma mais indistinta possível, esperando que o público se contente com o que é certo: o carisma dos protagonistas e a autoconsciência de sua tolice.