Em uma das cenas mais emblemáticas de Batman: O Cavaleiro das Trevas, Harvey Dent (Aaron Eckhart) questionava a possibilidade de “viver o bastante para tornar-se o vilão”, processo que ocorre de fato com o promotor ao longo de uma noite conturbada e cheia de perdas em Gotham. Coringa, de Todd Phillips, não verbaliza a seguinte ideia, mas parece indagar algo além: o quanto é necessário para este vilão tornar-se símbolo, ou mesmo uma celebridade?

Ainda assim, a proposta de Phillips nunca é a de glamourizar o famoso vilão das HQs, mesmo que decida dar a ele um arco mais identificável. O mistério que paira sobre o arqui-inimigo do Homem Morcego é trocado por uma abordagem focada no estudo de personagem detalhado. Aqui, o Rei Palhaço do Crime começa como Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), um sujeito perturbado e às margens como aqueles que sempre lemos sobre em jornais ou vemos dissecados em programas criminais.

Livre do maniqueísmo comum ao cinema de heróis, o filme de Phillips imerge na vida e principalmente na psique de seu protagonista, que possui um distúrbio que o faz rir de forma incontrolável quando passa por instantes de ansiedade. Ou seja, nem mesmo a risada do palhaço, associada a seu sadismo, é exatamente o que indica. A falta de parâmetros familiares do gênero torna Coringa uma experiência incômoda, que parece a cada curva revelar um detalhe mais sombrio ou conflituoso.


Como Taxi Driver, uma das principais referências de Phillips para o projeto, seu próprio título reflete apenas a percepção superficial que se tem do protagonista, que no fundo é um homem quebrado, guardando um turbilhão de pensamentos conflitantes e, mais que tudo, uma imensa dor. Ao longo de uma série de episódios violentos, Arthur desabrocha sua faceta mais sinistra em delírios de grandeza, que passa a consumir a tudo e a todos, quase como uma explosão incontrolável.

Esta transformação é evocada com um esforço por vezes aflitivo de Joaquin Phoenix, que contorce seu corpo de maneiras monstruosas e domina a contradição que surge em seu rosto com o distúrbio de risos. Nem aproximando Arthur ao frio sociopata de Heath Ledger e nem ao lunático pomposo de Jack Nicholson e afins, Phoenix tem em mente uma personagem mais complexa e tridimensional, humanizando-a – no sentido de torná-la verossímil como indivíduo, e não mais simpática ou admirável.

A confusão interna de Arthur também é evocada com grande êxito através da trilha sonora de Hildur Gudnadóttir e a montagem elíptica de Jeff Groth, sempre criando uma subcorrente de incerteza que nos faz duvidar do que ocorre e do que irá acontecer em seguida – é estabelecido desde o princípio que o protagonista possui distúrbios psiquiátricos mais profundos. Gudnadóttir, em especial, sustenta ansiedade constante desde os primeiros minutos com suas cordas impactantes.

Já a excepcional fotografia de Lawrence Sher capta na película 70mm a sujeira de Gotham, e além disso, pela escolha desta razão de aspecto mais ampla e uma distância focal baixa – ver em IMAX certamente é recomendado -, praticamente engole o público com suas imagens vívidas e ricas em camadas. Porém é o tipo de trabalho que eleva não só a ambiência das locações, como um que satisfaz seus momentos mais intimistas, com alguns closes impressionantes no rosto de Joaquin.

No entanto, Coringa possui uma visão menos clara na perspectiva de roteiro, criado por Phillips em parceria com Scott Silver. Se no início o texto nos mantém adivinhando e antecipa possíveis reviravoltas que poderiam tornar a jornada de Fleck em uma inesquecível no cânone DC, logo o material cai em uma estrutura mais segura, com outras revelações que surgem de forma quase gratuita – fora o aspecto surpresa, o arco da vizinha de Zazie Beetz se mostra pouco essencial ao longa.

Além disso, o fato de tomar como referências tão queridas os filmes de Scorsese, Taxi Driver e O Rei da Comédia, pode ser louvável como um resgate daquele então novo cinema americano mas dá ao enredo um quê de derivativo, antecipando a natureza de certos eventos que surgem no caminho para o terceiro ato. Coringa só não seria um trabalho tão marcante caso o encerramento escolhido por Phillips e Silver deixasse de abraçar certos acontecimentos das HQs com tanta verve.

Vale dizer que, em paralelo com o trajeto de Arthur Fleck, é desenvolvido – e muito bem, por sinal – um pano de fundo socioeconômico para esta versão de Gotham City, onde as ruas estão infestadas de lixo, verbas dos serviços sociais e de saúde são cortadas e cresce uma relação de antagonismo contra o empresariado, representado por Thomas Wayne (Brett Cullen). Este aspecto não serve apenas como base de comparação com tópicos reais, mas choca-se com o arco de Arthur a fim de evocar uma provocação.

Muito se falou acerca de Coringa sobre seu possível impacto fora das telas. Por ironia, quando associado aos levantes populares em Gotham durante certo ponto da projeção, o Palhaço diz “não acreditar em nada”, que não é “político” e critica um certo sistema falho que “mede o que é certo e errado”. Então mesmo que o longa não tenha como intenção ser político, ao menos é uma obra que não se mantém ensimesmada, que reconhece o que está fora e por isso defende bem sua existência como, ora, uma obra.

Criando inclusive um certo diálogo com Nós, de Jordan Peele, que abordou um levante alegórico da América Profunda custe o que custar, Coringa é um produto de seu tempo que simultaneamente olha para o passado, aos tempos em que o cinema norte-americano encarava o abismo com mais coragem. Aqui, a constatação é de um coletivo desequilibrado, que como o palhaço de Ledger havia dito em sua marcante saída de cena, só precisa de um empurrãozinho para ser levado à loucura.