Campo do Medo, o mais recente lançamento da Netflix mostra acima de tudo e todos, uma coisa: um campo verde bem cuidado, agora, medo é algo que passa despercebido nesta produção dirigida por Vincenzo Natali, mais conhecido como a mente por de trás do cult Cubo de 1997.

Baseado na novela de terror In the Tall Grass, escrita pelo renomado Stephen King, junto de seu filho e também escritor Joe Hill, o longa produzido pela provedora mundial via streaming nos conta a história de dois irmãos, Becky e Cal, que em uma viagem, ao parar o carro na estrada após a jovem passar mal, escutam a voz de um garotinho pedindo ajuda, vinda de um enorme matagal bem ao lado da rodovia. Decidem atender o chamado de socorro do menino e adentram a mata alta, porém, logo percebem algo de estranho naquele lugar, e agora, irão lutar para sobreviver e tentar sair dali vivos.

É inegável que ao ler a sinopse imagine-se uma obra que será capaz de fazer o assinante Netflix pular ou se retorcer na cama ou sofá de casa. Este não é o caso!


Lamentavelmente, Campo do Medo de Vincenzo Natali não tem absolutamente nada a dizer de diferente, e pior, se repete demais, deixando de fazer o básico do básico que é nos envolver na trama via personagens. Nenhum deles apresenta o mínimo razoável de construção interessante, ou tratamento que seja suficiente nos encurralar no “terror” que é a imensidão verde que estão perdidos.

E, se for do tipo que gosta de todas as coisas bem explicadinhas ao final dos créditos, o filme de Natali será, além de entediante, uma inegável decepção. Na real, este nem é um dos problemas do filme, deixar no campo do sugestivo sempre arremeda insinuações estimulantes. O problema maior é a falta de tato da parte do cineasta em tentar – e falhar – criar uma atmosfera claustrofóbica neste mar verde de insanidades. Só, em uma única cena, que é logo no começo, que é possível sentir algo de ameaçador vindo deste campo, quando vemos irmãos pulando o mais alto que podem para tentar se encontrar neste labirinto da natureza. Dura segundos. Dali em diante, mais nada.

Vale estabelecer um comparativo para provar tal ineficácia do enredo em arrepiar o espectador. Campo do Medo, em matéria de escala pode ser comparado a It: Capítulo 2. Óbvio que a produção canadense da Netflix possui um orçamento muito, mas muito menor que a grande produção estrelada pelo palhaço Pennywise. Mas, ambas falharam exatamente no mesmo ponto: a ideia de quanto mais e maior, melhor.

Tudo o que isto faz é florear e iludir quem assiste, esquecendo o essencial no gênero terror que é pinçar nervos, incomodar, surpreender, provocar, e assim por diante. Vincenzo Natali praticamente esqueceu de tudo isso ao apresentar a vastidão do vale que aqui serviria como o ambiente inóspito das personagens criadas por King/Hill.

Outra confrontação interessante seria deixar em paralelo, a obra de Natali e Midsommar: O Mal Não Espera a Noite de Ari Aster, definitivamente até o momento, o mais incômodo – e surpreendentemente hilariante – filme de terror de 2019. Ambos se passam na maior parte dentro de um mesmo cenário. Todavia, um prefere “assustar” com o que você não consegue ver e entender, já o outro, opta por iluminar – incluso o sentido figurado da palavra – aquilo que você não deveria ver. Fica a pergunta: qual destes causa maior dano ou traumas no íntimo humano? Se tiver dúvidas, procure um veterano de guerra, com certeza, ele tem a resposta.

Assim, concluí-se que Campo do Medo de Vincenzo Natali usa, e reusa, dos mesmos macetes de outras produções do gênero, sem trazer um algo peculiar, ou mesmo alguma vibração extravagante. Talvez, o que de mais esdrúxulo – no bom sentido – tenha nesta obra Netflix seja a performance bem ‘over’ de Patrick Wilson, que faz um pai de família renascido pelas mãos do Senhor.

Aaahhh, é verdade! Quase escapou pontuar qual é a temática do filme de Natali: fanatismo religioso. Nada como uma igreja abandonada, caindo aos pedaços, para exaltar tal ideia.

Mas, já que estamos no universo de Stephen King. Talvez, após assistir Campo do Medo e tirar suas próprias conclusões, continue interessado no tema e a visão do autor. Carrie, a Estranha de 1976, dirigido por Brian De Palma, indiscutivelmente e de maneira categórica faz melhor frente sobre tal tema.

Quem sabe você não resolve assistir o clássico de 76, e aproveita para apagar da memória a mais nova produção Netflix?!