No mesmo final de semana, a provedora mundial Netflix disponibilizou para seus assinantes, duas fitas de terror produzidas por ela: Eli, dirigido por Ciarán Foy, e Contato Visceral, obra de Babak Anvari, cineasta nascido no Irã, que possui passaporte britânico.

Curioso que o gênero do horror – e todas suas subcategorias ramificadas – representam uma panelinha dentro da área cinematográfica. Os já citados, além de dois dos maiores nomes do momento dentro deste nicho, que são: Ari Aster de Hereditário e Midsommar: O Mal Não Espera a Noite, e Robert Eggers de A Bruxa e o muito aguardado O Farol, estrelado por Willem Dafoe e Robert Pattinson se apresentam como cineastas que trabalham, até o momento, exclusivamente dentro desta classe de filmes.

Justificável, já que até alguns anos atrás, a categoria terror, mesmo não possuindo obras que chegaram ao topo das maiores bilheterias de todos os tempos, foi coroada como a que mais levava público para as salas de cinema ao redor do mundo.


Talvez, dentro da esfera que cobre a cultura pop – ainda mais nos dias atuais com incontáveis filmes de super-heróis – , a família que curte as variações do cinema macabro seja a mais extasiada. E, não é difícil imaginar que Babak Anvari, diretor do empolgante Contato Visceral também seja parte desta família apreciadora do assustador e do sinistro.

O mais recente terror da Netflix nos apresenta Will, um barman que trabalha no turno da noite de um estabelecimento na cidade de New Orleans. Sempre rodeado de amigos e bebidas, Will leva a vida como se nada mais importasse, sem preocupações, apenas curtindo o momento. Porém, após uma briga entre dois beberrões destruir partes do bar, o barman nota que um grupo de jovens assustados com a luta, saíram correndo e deixaram um celular para trás. Will leva o celular para casa, e começa a receber mensagens perturbadoras, e algumas fotos e vídeos bem macabros. Carrie, sua namorada, também se envolve nesta confusão e descobre algo que vai aterrorizar a vida e relacionamento de ambos.

Existe algo em comum entre Contato Visceral de Anvari, e Midsommar: O Mal Não Espera a Noite de Aster. Ambos são filmes que falam sobre relacionamentos amorosos. Sim, nos tempos atuais, filmes de terror abordam assuntos de todo tipo, e alguns são incrivelmente surpreendentes em sua forma narrativa, como o citado longa dirigido por Ari Aster, que está entre as mais superlativas produções do ano de 2019.

A terminologia pós-terror, adorada por alguns e odiada por outros, gostando-se ou não, cabe perfeitamente para explicar o tipo de terror que a obra de Anvari aborda. Já que não é um terror que vem de fora, mas de dentro. Assim, toda a parte ritualística e incompreensível que o protagonista da trama, interpretado por Armie Hammer, sente ou encara, é mais um sintoma do que já se encontrava internamente.

Contato Visceral foi baseado no livro The Visible Filth – no traduzido, A Sujeira Visível – de Nathan Ballingrud. O título do livro já diz tudo, basta olhar para o personagem de Armie Hammer – que exerce performance competente – no longa produzido pela Netflix para perceber. Sempre maltrapido, com a barba para fazer, suado, e até fedido, como pontuam algumas personagens femininas da história. O que torna muito interessante a escolha do ator como o astro principal desta produção, dado que é um galã, um sex symbol, que aqui se apresenta em seu pior estado, não apenas fisicamente.

Se Midsommar: O Mal Não Espera a Noite tratava de um casal beirando o fim do relacionamento, Contato Visceral prefere focar apenas no lado masculino nesta narrativa. Contudo, não é para elevá-lo, mas com a intenção de apresentar o quão tóxico e moribundo seu estilo de vida afeta as pessoas à sua volta, negativamente.

A podridão de Will atrai os insetos que infestam onde quer que esteja. Estes, não são nada mais do que uma consequência do que é a vida e escolhas de Will, que está caindo mais no buraco, e cada vez mais sozinho também, uma vez que sua namorada – papel de Dakota Johnson – decide que quer exterminar estas pragas de sua vida, de uma vez por todas, apesar das dores do fim.

Contato Visceral da Netflix é uma obra de terror que não assusta nada com o intangível, mas que atormenta e inquieta o íntimo com tamanho vazio humano.