Vez ou outra, vasculhando pelo cardápio da Netflix, acabamos encontrando algumas jóias raras. Mais surpreendente ainda, quando estas são produções de orçamento enxuto, como por exemplo: I Am Mother, The Perfection ou Estrada Sem Lei, só para citar alguns.

Felizmente, o longa de terror sobrenatural Eli se junta a este seleto grupo de jóias preciosas da provedora mundial via streaming, mas fica o aviso: esta obra é, exclusivamente, cinema de nicho. Desta maneira, talvez só aqueles mais ávidos e fanáticos pelo gênero de terror – e suas peculiaridades distorcidas – irão sentir e se divertir muito nesta jornada cheia de deflexões e contrapontos no filme de Ciarán Foy. Detalhe: regada à cruzes invertidas, espíritos, jump scares e uma criança sofrendo de uma doença grave.

Eli conta a história de um garoto que possui uma doença autoimune que ataca sempre que se encontra exposto ao mundo externo. Sua pele começa a ficar extremamente avermelhada, machucando-o com queimaduras. Seus pais Rose e Paul, fazem de tudo para tentar curar seu filho desta condição horrível. Agora, eles depositam sua fé nas mãos de uma doutora que usa de tratamentos experimentais fora do comum para finalmente poder ajudar Eli. Mas, enquanto o menino passa pelo novo tratamento, começa a ser assombrado por experiências estranhas que o fazem questionar quem ele pode confiar de verdade.


Não dá para fugir do óbvio nesta obra de Ciarán Foy. Seu projeto da Netflix é um enorme pot-pourri macabro. Por pelo menos 2/3 do filme, será possível reconhecer elementos de tantos outros filmes de terror já vistos e revistos.

Então, qual é o diferencial aqui em relação a outros do mesmo tipo? Resposta: Visualmente, não há diferença; na forma narrativa, também não há. Todavia, o cineasta de nacionalidade irlandesa que é, claramente, um entusiasta do horror – já que seus dois longas anteriores, Citadel (2012) e A Entidade 2 (2015) também são do mesmo estilo – sabe confundir, ao mesmo que manter o assinante engajado na trama.

E como ele faz isso? Simples. Sendo preciso no ‘timing’ destas cenas do tipo sobrenatural – mesmo aquelas onde exagera um pouco mais com repetições – , e principalmente, na maneira como manipula o enredo, levando o espectador a sempre duvidar do que está vendo, ou até do que virá adiante. A única coisa definitiva em Eli, é a atuação do jovem ator Charlie Shotwell, que em 2016 brilhou como um dos filhos de Viggo Mortensen no emocionante Capitão Fantástico.

A princípio parecia que a performance de Shotwell se resumiria a algo mais vigoroso, tão somente. Contudo, o jovem ator acabou por entregar muito além da encomenda, vide os quarenta minutos da parte final do filme da Netflix. Natural perceber que o menino está muito à vontade em cena – algo essencial, especialmente nos chocantes e derradeiros momentos desta história.

Sabendo que elogiar o ator mirim significa engrandecer o trabalho de Foy, é preciso comentar a habilidade do cineasta de transferir os pesos do texto elaborado pelo trio David Chirchirillo, Ian Goldberg e Richard Naing sem soltar o fio narrativo, ou perder a vibração das cenas. Fora a manha de fazer o observador acreditar que está vendo por uma perspectiva, mas que pode ser outra, ou até uma segunda perspectiva diferente.

Exemplo: em determinado momento bem na parte central de Eli, começamos a cogitar a possibilidade de que o problema não é o garoto, mas seus pais que demonstram certo distanciamento entre si, que pode ter afetado algo na condição física e mental do próprio filho. Extraordinária é a cena onde estão no mesmo plano, pais e criança na cama, sendo que na realidade se encontram em quartos separados.

Outro acerto no enredo de Eli, vem pela elaboração de um ótimo contraponto – elemento ausente no fraco e previsível Coringa – ao aprisionamento do garoto na mansão onde acontece seu tratamento: Haley, a garotinha ruiva do lado de fora, que é interpretada por Sadie Sink, a Max Mayfield de Stranger Things. Esta personagem é o maior ponto de interrogação do filme de Ciarán Foy. Apenas nos minutos finais será revelado quem é Haley.

No caroço de Eli encontra-se a temática da obra: o bem contra o mal. Clichê, não?! Talvez na série de filmes Transformers, mas não aqui! No longa da Netflix, bem significa prisão, segurança e sacrifício; já o mal representa o livre-arbítrio e emancipação. Certamente, Ciarán Foy e os roteiristas buscaram conhecer os trabalhos de Anton LaVey, fundador da Igreja de Satã e autor da Bíblia Satânica para tornar Eli algo tão indulgentemente atraente.