Apesar de constituir o primeiro longa-metragem da carreira de Dennison Ramalho, Morto Não Fala deixa claro que o percurso trilhado pelo cineasta no gênero do terror já contava com alguma primazia. Seus curtas, que incluem os notórios Amor Só de Mãe e Ninjas, além de um segmento incisivo para a ótima antologia O ABC da Morte 2, surpreendiam pela união do gore extremo ao cuidado com a atmosfera e, no caso dos dois últimos, ambição temática, mesmo debaixo de baixos orçamentos.

Os planos iniciais de Morto Não Fala denotam ambições ainda mais amplas por parte de Ramalho e seu uso de temas sociais, com vistas aéreas de São Paulo e uma cacofonia criada no choque dos sons da violência pela cidade, desde gritos a esfaqueamentos e tiros. A câmera então passa a seguir o “rabecão” onde se encontra um futuro cadáver, que será inspecionado pelo protagonista Stênio (Daniel de Oliveira) em seu turno da noite como legista em um necrotério subadministrado.

A grande sacada do roteiro de Ramalho e Cláudia Jouvin, adaptando do livro de Marco de Castro, é trazer um protagonista que não só trabalha com os mortos, como também é capaz de falar com eles. A cada corpo que chega ao necrotério, Stênio escuta um novo lamento de uma existência infeliz na cidade violenta, seja a causa da morte os conflitos entre gangues e polícia na periferia ou mesmo brigas de torcida durante jogos acirrados de futebol. Até que, um dia, tudo se torna pessoal.


A decisão de materializar os mortos falantes em tela por meio do CGI, ou melhor, acrescentando rostos digitais em corpos feitos de forma prática, tem seus prós e contras. Se esta forma de execução permite que os diálogos com os mortos ocorram enquanto Stênio faz seu trabalho, abrindo-os por completo ou costurando-os, a baixa fidelidade visual dos efeitos mostra-se como uma distração gritante, especialmente quando uma importante personagem está colocada sobre a maca.

Isso, no entanto, realça uma qualidade de fantasia e acaba involuntariamente levantando dúvidas específicas: estaria Stênio imaginando suas interações com os mortos, como uma projeção de sua mente? Porém Morto Não Fala descarta rapidamente estas oportunidades para se firmar, por volta de sua metade, como um filme de terror tradicional com fantasmas. Felizmente, se a troca de marchas pode soar frustrante a princípio, o ponto de partida já havia criado um bom atrito dramático e Ramalho, junto do elenco, fazem o melhor.

A ideia de um homem que, apesar de seus poderes extraordinários, se mostra falho e paga caro por usar estes poderes para um objetivo egoísta, dá à trama essa nova camada pessoal, que acaba por distinguir a obra das demais incursões com ideias similares dentro do gênero. Revela-se assim um esmero com a personagem e um interesse genuíno por suas motivações tortas, sem falar no impacto destas ações sobre seu círculo familiar, criando grande engajamento com a obra até sua levemente ambígua conclusão.

Mesmo quando Morto Não Fala cumpre com a ideia de um terror calcado em sustos e aparições, Ramalho conduz estas cenas com um cuidado ímpar pelo espaço de cena e uso de sons de grande impacto, como madeiras que rangem e cabeças que batem contra paredes de gesso. A atenção com enquadramentos e uso de lentes anamórficas na fotografia crua de André Faccioli, inclusive, se reflete também nos instantes dentro do necrotério, que ganham um aspecto depravado, trunfo também da direção de arte de Fábio Goldfarb.

Outro ponto alto é o comprometimento do elenco, que ainda inclui nomes como Bianca Comparato, Fabíula Nascimento e Marco Ricca, com este tipo de material. Despindo-se de preconceitos ainda comuns em nosso cinema, estes atores, mesmo com a pouca experiência dentro do gênero, tratam suas convenções com grande respeito e o prestígio que geralmente não se associa com o terror sanguinolento. Porém é Oliveira que domina o longa com seu complexo papel, tomando quase todo o tempo de tela.

Contando ainda com uma trilha sonora deliciosamente experimental de Paulo Beto com instrumentais sinfônicos aliados a sons mais concretos, Morto Não Fala se eleva sobre seus deslizes pela pura empolgação que tem em trazer uma experiência de terror de primeira ordem, que mesmo deixando de lado alguns dos aspectos mais idiossincráticos e interessantes de sua premissa, se encerra com o saldo ainda positivo e promete um futuro brilhante para Ramalho como um dos principais nomes do terror nacional.