Com carreira musical estabelecida, Rob Zombie fez sua estreia como diretor de cinema no início dos anos 2000 com A Casa dos Mil Corpos, e apesar de não cair a todos os gostos, demonstrou evolução como cineasta ao longo de quase duas décadas. A saga da Família Firefly, que teve início com o longa citado acima e continuou através de Rejeitados pelo Diabo e agora Os 3 Infernais, é exemplo disso, evoluindo do pastiche à assinatura.

Os 3 Infernais, o suposto capítulo final da saga, reapresenta os assassinos Capitão Spaulding (Sid Haig), Otis Driftwood (Bill Moseley) e Baby (Sheri Moon Zombie) sob lentes documentais, após sobreviverem milagrosamente à troca de tiros com a polícia ao final do longa anterior. Por alguns bons minutos – quase meia hora -, o novo filme de Zombie aposta no formato mockumentary para estudar o impacto das ações da gangue no imaginário popular.

Esta é uma forma de Zombie comentar de maneira mais frontal sobre o fascínio que se possui diante de serial killers, incluindo agora a mídia e o sistema prisional como instituições que podem cooperar, ou não, com a consequente glorificação dessas figuras desprezíveis. O comentário nunca chega a níveis de Assassinos por Natureza, que tratava seus assassinos como meros produtos deste sistema, e Zombie aposta em uma abordagem ambígua.


Grande parte do efeito de Os 3 Infernais, como podia se observar em Rejeitados pelo Diabo, surge do contraste frequente entre o choque da violência provocada pelo grupo de assassinos e a natureza casual de suas interações dentro de quartos de hotel, e não se sabe o quê é interlúdio de quê. É uma proposta que obviamente não desce com facilidade, mas que atinge a certo ponto esse efeito específico de quase fazer simpatizar com os protagonistas.

Quase, é claro, porque a brutalidade de suas ações não pode ser ignorada, e Zombie nunca ameniza os atos de violência retratados – apenas acrescenta entre eles momentos mundanos. Deve-se então ressaltar o trabalho ímpar do elenco reunido aqui, que dominam a contradição de suas personagens ao invocarem suas personas psicóticas, com frases de efeito e apelidos, ao mesmo tempo que criam alguns momentos genuínos de ternura e reflexão. Além disso, o humor continua presente.

O que deve afastar e atrair alguns em igual medida é a visceralidade que Zombie dominou ao longo de seu trabalho, novamente experimentando com a montagem para surtir o máximo de impacto. Há, por exemplo, uma brilhante luta em uma cela de prisão que, além de sufocante pelos cortes rápidos e sons acentuados, desorienta o espectador quanto a quem está perdendo e quem está ganhando, ainda misturando sons de prazer com outros de sofrimento.

Se as quase duas horas desta violência formal, em que o próprio filme parece gritar em delírio, podem ser cansativas e alienantes, Zombie mostra que amadureceu de fato e encontra, ao final deste exercício estético, alguns trechos recompensadores. O tiroteio climático em um vilarejo no México une música – In a Gadda da Vida é muito bem empregada – a estilosas imagens em slow motion para criar antecipação à violência, e sustenta este suspense por quantidade invejável de tempo até que ocorra a erupção de sangue e balas.

Há, sem dúvida, algumas indulgências que se provam, da mesma forma, totalmente desnecessárias. A alucinação de Baby com uma gata bailarina ou o excesso de referências a nomes do terror clássico surgem sem muito propósito e nem resolução. Rob Zombie, na tentativa de provar que está “acima” do slasher, não vê que seu amor incondicional pelo terror é prova suficiente de seu esmero, e por mais que seus grandes momentos venham da mesma intuição que cria tais excessos, ainda não parece capaz desta distinção.

Algo que também já denotava a evolução na proposta de Zombie é a transformação dos assassinos Firefly. Se eles eram retratados como monstros de casa mal assombrada em A Casa dos Mil Corpos, abraçando uma estética fake em suas “fantasias”, é interessante perceber como ao longo de Rejeitados pelo Diabo e este Os 3 Infernais os sujeitos se despem destas caricaturas fáceis em troca de uma aparência humana, o que os torna mais imprevisíveis e voláteis aos olhos do público.

Nem todo cineasta é capaz de manter-se fiel à sua proposta de cinema e ainda, por cima disso, reformular tanto seu estilo como Zombie fez na virada de sua carreira em 2005 com Rejeitados, e apesar de encontrar-se de certa forma decidido em levar esta assinatura crua ao máximo, é um nome que pode surpreender novamente no futuro. Quem sabe Os 3 Infernais marque esta passagem do diretor a territórios novos.