Há algo sobre corridas automobilísticas que as torna extremamente cinemáticas e empolgantes, mas há também, por trás delas, diversos detalhes que podem criar uma experiência de cinema muito mais enriquecedora. Como um automóvel preparado para queimar asfalto e borracha, um bom filme de corridas necessita de todas as partes em seus devidos lugares, e toda customização adicional é mais que bem-vinda.

Ford vs Ferrari se revela ser muito mais do que aparenta. Pode-se dizer até que seu título, apesar de cativante e atrativo ao público já íntimo do tema, é bastante redutivo se comparado à história contada neste filme de James Mangold, que conduz sua primeira cinebiografia desde o celebrado Johnny e June. O longa possui duas frentes, a institucional e a pessoal, dividindo-se entre retratar a disputa entre corporações e os dilemas pessoais de seus protagonistas.

Em meados da década de 60, a Ford, fabricante de carros estadounidense, esteve em um processo de aquisição da Ferrari, fabricante italiana lendária mas então à beira da falência. Enzo Ferrari, quando informado de que sua marca não competiria Le Mans naquele ano de 1966, desistiu do acordo e fechou a venda com a também italiana Fiat, frustrando os planos de Henry Ford II (Tracy Letts) e sua equipe de marketing.


A única maneira de dar a volta por cima, na visão do chefe de marketing, é derrotar a Ferrari em Le Mans com o primeiro automóvel de corrida a ser fabricado pela Ford. Para isso, diversos designers de automóveis são recrutados para desenvolver carros de corrida Ford, entre eles Carroll Shelby (Matt Damon), único piloto dos EUA a vencer o disputado evento de corrida na história. Obviamente, são muitos detalhes, mas o filme de Mangold flui naturalmente por todos eles.

Apesar da importância de Shelby à trama, sua personagem central surge na figura de Ken Miles (Christian Bale), corredor controverso mas experiente que o designer recruta na missão de testar o novo Ford GT40 e, possivelmente, competir em Le Mans. Miles é exatamente isso, uma figura, mas uma que Christian Bale torna em matéria humana bruta e que o roteiro mais aprofunda, inclusive encontrando tempo generoso para desenvolver seu núcleo familiar.

À medida que Ford vs Ferrari avança e a “dick measuring” entre empresas passa a ficar de lado, torna-se claro que esta é uma história sobre o sucesso pessoal e até onde estamos dispostos a arriscar nossas conquistas mais íntimas perseguindo uma glória supostamente maior, fazendo-nos percebidos pela história. Todos correm riscos extremos nesta história, mas ninguém põe sua mão no fogo como Miles, e isto cria um engajamento fascinante até mesmo em quem conhece os fatos.

Diante do desempenho monumental de Bale e a força de sua personagem, Damon pode parecer menos integral ao projeto com sua interpretação de Shelby, mas este é outro truque que Ford vs Ferrari possui em sua manga. Encarregado dos trâmites fora das pistas e dedicado basicamente a convencer Ford e seus fiéis a acreditarem no potencial de Miles, Shelby dá a Damon a oportunidade de experimentar um semblante mais seguro de si, capaz de um contorcionismo moral para atingir seus objetivos.

Porém quando a poeira abaixa, vemos um homem generoso, fiel quase que de forma apaixonada a seu amigo. Para um projeto cujo título enfatiza a adversidade, Ford vs Ferrari é uma obra que homenageia a cooperação, enobrecendo o vínculo entre Shelby e Miles, e que não se preocupa em retratar as ações da Ford de forma lisonjeira – a corporação está mais próxima de uma antagonista na trama do que a Ferrari propriamente dita. A James Mangold, não interessa o jogo, mas os jogadores e sua cooperação.

Ainda assim, o longa vibra durante as corridas, tanto pela cinematografia corajosa, pela montagem atenta a detalhes ou por tudo que envolve o departamento sonoro, com um trabalho de mixagem primoroso que carrega nos ruídos sem nunca soar excessivo ou inautêntico. Mangold, que já havia criado perseguições automobilísticas caprichadas em Encontro Explosivo, apresenta o mesmo dinamismo veloz com a câmera, fazendo longos trechos voarem.

E mesmo diante de tamanho espetáculo sensorial, motores roncando e pneus cantando, o elemento de maior fascínio se encontra no banco do motorista. Como diz Shelby em dois momentos sensíveis de Ford vs Ferrari, existe um ponto a 7 mil RPM em que o corpo torna-se nada mais que um objeto movendo-se pelo espaço tempo, e James Mangold concretiza esta formidável visão em um dos instantes finais. Vencedores ou perdedores: nada disso importa se estivermos totalmente sozinhos neste espaço tempo. Desacelerar também tem suas virtudes.