Em meio à recente onda de apropriação de artistas consagrados e suas músicas, Uma Segunda Chance para Amar, a princípio, é uma das tentativas mais intrigantes da safra. A atriz Emma Thompson, também conhecida por alguns de seus roteiros no cinema, faz aqui uma adaptação da famosa canção natalina de Wham!, “Last Christmas”, mas não em uma estrutura típica de musical, como seria o habitual, e sim no formato de comédia romântica comum. O filme ainda capitaliza sobre outras canções da autoria de George Michael, que pontuam o restante da narrativa.

Definir o longa como comédia romântica pode ser ainda um tanto pouco específico, visto que Uma Segunda Chance para Amar assume uma qualidade de conto natalino em sua premissa, dependendo a certa altura de grande suspensão de descrença por parte do espectador que aguarda apenas um foco no romance entre as personagens de Emilia Clarke e Henry Goulding. Esta premissa, no entanto, praticamente constitui um spoiler, mesmo que seja em tese o argumento que levou à produção da obra – inclusive, fica o conselho de evitar trailers e sinopses.

Já agregando a uma coleção de diversos poréns, o roteiro assinado por Thompson suscita diversas dúvidas quanto à sua estrutura, que passa tempo demais nos introduzindo ao cotidiano da protagonista Kate (Clarke) e seu vai e vem com o charmoso mas misterioso Tom (Goulding), com quem passa a formar um vínculo amoroso. Intercalado ao romance, estão outros cenários ordinários, como o dia a dia de Kate em seu trabalho em uma loja de enfeites e a relação com os pais imigrantes, e apesar de simpáticos, nada parece caminhar em direção a um conceito.


O banho-maria não é de forma alguma um pecado para uma comédia romântica que se propõe a fornecer uma distração casual e segura, mas há delonga desnecessária até que o filme passe a cultivar e esclarecer a importância deste romance para o crescimento da personagem principal, e seus reflexos sobre o restante dos círculos de que a protagonista participa. Na verdade, quando Uma Segunda Chance para Amar caminha para seu desfecho, torna-se claro que o grande argumento do roteiro de Thompson não sustentaria um filme todo, o que justifica o excesso de meandros no desenvolvimento.

O que enfraquece o miolo da produção, de fato, é a inconsistência do humor empregado por Thompson e o diretor Paul Feig, surpreendentemente contido neste projeto. O texto se mostra indeciso entre uma ingenuidade mais infantojuvenil, antenada às necessidades de criar um produto para consumo familiar nos cinemas, e um humor mais adequado aos jovens adultos, com uma série de temáticas e arquétipos que remetem um bocado ao seriado premiado Fleabag – sem palavrões ou nudez, é claro. Nos dois casos, a entrega é fraca para deixar maiores impressões.

Mas a maior decepção fica por conta do emprego das músicas de George Michael, tendo em conta que o longa prometia pautar-se sobre as faixas para encaminhar os significados de sua narrativa. Salvo por “Last Christmas”, que serve como base para os principais toques do enredo, trilhas como “Faith” e “Wake Me Up Before You Go-Go” são reservadas a ocasiões superficiais, basicamente acenando a algum elemento imagético da cena – a ambientação em uma paróquia ou o simples ato de acordar da protagonista, respectivamente.

Porém de boas intenções, o filme está cheio, e Thompson certamente tem mais sucesso em delinear as diversas temáticas contempladas em seu conto, algumas delas sintomáticas ao Brexit, como o retrato dos reflexos da crise financeira e a abordagem conciliadora dos sentimentos xenofóbicos compartilhados por parte da população britânica, algo que afeta diretamente a esfera pessoal de Kate – afinal, ela e seus pais são imigrantes eslavos. São toques essenciais à redenção natalina da protagonista que enobrecem também o filme como uma obra de seu tempo.

Embrulhando o singelo pacote, está um elenco inegavelmente simpático, que além de Clarke e Goulding, conta também com as presenças de Michelle Yeoh e a própria Emma Thompson, ostentando um sotaque do leste europeu que, embora pouco convincente, nunca distrai ou ofende. Pena que Uma Segunda Chance para Amar nunca apresente nada especialmente marcante, e sua grande reviravolta, que permite ao projeto dizer a que veio como tributo à música de George Michael, se mostre tão pouco orgânica ao restante da narrativa. Aos que esperam uma árvore inteira, este filme está mais para um pé de meia.

Uma Segunda Chance para Amar