A provedora mundial Netflix está no topo do mundo no momento! Realmente está, dado que nesta temporada de premiações que se encontra logo ali na esquina, conseguiu que quatro de suas produções originais ganhassem destaque da crítica especializada e associações variadas que discutem o cinema. Por exemplo: nos prêmios do Globo de Ouro – representados pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood – , obteve dezessete indicações, seis para o excepcional História de um Casamento, cinco para o bom O Irlandês, duas para o ótimo Meu Nome é Dolemite, e agora, mais quatro com o drama biográfico Dois Papas, dirigido pelo cineasta brasileiro mais conhecido pelo mundo, o paulistano Fernando Meirelles.

O renomado diretor mais famoso pela obra Cidade de Deus (2002), que difundiu ao redor do globo, o slogan que diz – ‘ … na Cidade de Deus, se correr o bicho pega, e se ficar, o bicho come’ – resolveu em 2019 praticar um pouco de seu catolicismo – mesmo admitindo certo relapso para com a religião – com Dois Papas, estrelado pelo duo Jonathan Pryce e Anthony Hopkins.

O longa da Netflix, inspirado em eventos reais, nos leva de volta ao começo do século, logo após a morte do Papa João Paulo II, quando o povo cristão se reuniu na Praça de São Pedro no Vaticano, à espera de um novo pontífice que representaria a Igreja católica, e este veio no conservador alemão Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI. Sendo quase eleito, o Cardeal Jorge Mario Bergoglio retornou para a Argentina, seu país de origem. Porém, com o passar de alguns anos, se encontrava frustrado com a direção que a Igreja estava tomando, e resolve pedir permissão para o líder católico de poder se aposentar de seu cargo. Mas, o Papa Bento XVI enfrenta uma das grandes crises do Vaticano, e em encontra em suas conversas com o progressista cardeal, o espaço e a compaixão para as agonias e solidão que sente. Atrás dos muros da mais conhecida cidade-Estado do planeta, se inicia um embate de dois homens carregados de culpa, mas dispostos ao perdão, buscando um terreno comum na tentativa de criar um futuro melhor para bilhões de seguidores ao redor do mundo.


Existem dois méritos de maior destaque no filme Dois Papas de Fernando Meirelles: os diálogos entre os personagens-título e as performances de Pryce e Hopkins.

Começando pelo material escrito por Anthony McCarten (O Destino de uma Nação; Bohemian Rhapsody), que dispõe de diálogos fluentes que transitam entre drama e humor com leveza e muita elegância – similar ao longa A Grande Mentira, lançado recentemente – , mas também com alguns picos mais agudos. Da mesma forma, é possível também pontuar alguns exageros no roteiro de McCarten, tanto de estrutura narrativa quanto do conteúdo que visa um comentário social, em alguns momentos, aleatório demais.

Contudo, se o texto é a matéria bruta de maior valor, as atuações da dupla de atores galeses e veteranos são a joia lapidada brilhante desta obra dirigida por Meirelles. Ao testemunharmos o momento de intersecção na trama, podemos observar as aflições destes homens de fé, assim como suas idiossincrasias particulares. Anthony Hopkins, de feição mais severa, reproduz instantes de abertura quando abre um tímido sorriso, mas principalmente, quando expeli o ar de um corpo já muito cansado; enquanto Jonathan Pryce deixa escapar com exímia delicadeza, as ansiedades e angústias do Cardeal Jorge Mario Bergoglio (atual Papa Francisco) em sua face trêmula e olhares contritos, pesarosos.

E, é nesta convergência que podemos admirar o que acontece quando ambos se encontram no mesmo patamar, não em suas crenças ou pela espiritualidade avançada, mas em suas inquietações, no distanciamento que sentem em alguns momentos por não poder escutar a voz divina lhes confortando.

Em tempos recentes, tivemos outras obras que da mesma maneira, abordaram situações onde homens representantes da fé católica sentiam-se desamparados e machucados em um mundo onde o divino parecia algo abstrato, como o bom Silêncio (2016) de Martin Scorsese, e o sublime Fé Corrompida (2017) de Paul Schrader. Dois Papas de Fernando Meirelles é uma obra mais acessível que as citadas anteriormente – e não dispõe do primor técnico de nenhuma das duas – , assim, existe uma probabilidade de identificação maior com esta produção original Netflix, pois fica em evidência na narrativa do cineasta, uma declaração de compaixão para com aqueles que carregam o fardo da culpa nos ombros, e que na interlocução dos lados são encontrados: o perdão e o futuro.