É impossível assistir o Especial de Natal Porta dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo da Netflix, e não se lembrar de Mel Brooks, o venerado diretor, roteirista, ator e comediante. Okay, é óbvio que a turma do Porta dos Fundos é um pouco mais ácida em suas paródias religiosas que o ícone de 93 anos de idade. Ainda assim, depois de assistir o novo especial de Natal da provedora mundial via streaming fica claro a influência de A História do Mundo – Parte I de 1981 – a comédia já pode ser encontrada no título, visto que não existe uma Parte II.

O coletivo Porta dos Fundos, assim como o comediante americano Mel Brooks se especializaram na arte da farsa: o gênero teatral de caráter puramente caricatural de concepção simples, que aborda trivialidades em situações ridículas, sem medo de exageros ou gracejos. Geralmente, tal gênero serve além das transgressões. dado que pode agir como crítica sociocultural. É nessa área que a turma que produz vídeos cômicos para a internet prospera. Vale lembrar que o faz com grandes méritos.

O grupo recentemente foi premiado com um Emmy internacional (o Oscar da televisão e internet) na categoria de melhor comédia com o especial de Natal do ano passado, Se Beber, Não Ceie – também disponível ao assinante da Netflix. A sátira que copia o enredo de Se Beber, Não Case! – que resiste como o melhor trabalho da filmografia de Todd Phillips – mostrava os apóstolos depois de uma ressaca brava pós-a Última Ceia, percebendo que Jesus Cristo desapareceu.


Agora, em A Primeira Tentação de Cristo acompanhamos a festa surpresa que José (Rafael Portugal) e Maria (Evelyn Castro) prepararam para seu filho Jesus (Gregório Duvivier), que chega acompanhado de seu namorado Orlando (Fábio Porchat). Na celebração de 30 anos de Jesus Cristo, temos todos os tipos de convidados, dos Três Reis Magos até uma prostituta chamada Telma. Mas, o convidado mais especial da festa, além do próprio aniversariante, é Deus (Antonio Tabet) que tem uma missão para seu filho: carregar e espalhar sua palavra pelo mundo. Contrariando Cristo, que é de humanas, e prefere coisas como malabares, miçangas e saraus de poesia.

Talvez, uma das discussões que se repetem ao longo das décadas é: o que é mais difícil de fazer, drama ou comédia?

Querer arranjar uma resposta definitiva para tal pergunta, apenas demonstra uma enorme imaturidade por parte de quem se importa com esta questão. Na medida que cada material possui suas devidas construções, definições e nuances de acordo com o assunto e temas comentados. E, tentar medir o valor disso é tão vulgar quanto a introdução ‘Entendendo a Poesia’ que o Professor John Keating – interpretado por Robin Williams – pede para seus alunos rasgarem de seus livros na comovente obra Sociedade dos Poetas Mortos, dirigida por Peter Weir em 1989.

Porém, o que é fato na diferenciação entre os dois estilos, é que: no drama, são oferecidas mais chances, tanto para quem narra quanto para quem assiste, de fisgar e imergir todos na história sendo contada; já a comédia (ou farsa), é um pouco mais exigente, pois existe uma obrigação de ruptura, é preciso fazer rir para inserir quaisquer ideias ou conceitos desejados. Em resumo: a mensagem via drama pode vir pela insistência, repetição ou nível de profundidade que exerce sob o espectador; enquanto a comédia busca amaciar quem assiste com o riso, tendo que criar toda vez uma nova situação diferente para manter o interesse no material.

O renomado ator Jeff Daniels da excepcional comédia burlesca Debi & Loide – Dois Idiotas em Apuros (1994) de Peter Farrelly é dos que afirma que fazer humor não é mais fácil ou difícil que drama, apenas mais arriscado, pois corre-se o perigo de não conseguir ser engraçado.

Tudo isso para dizer que o Especial de Natal Porta dos Fundos: A Primeira Tentação de Cristo da Netflix é uma produção de acertos e erros. Algumas coisas são engraçadas – e bem pensadas – , já outras nem tanto ou nada. Felizmente, existem mais momentos certeiros ao longo dos 46 minutos de duração deste especial, do que deslizes. Assim, é possível se deliciar nesta muvuca que tem de tudo: Jesus fã de boy bands, Maria maconheira, José corno, Deus tarado, e até Rei Mago reclamando da uva passa na comida.