Desde que Lost chegou às telas da televisão no começo da década passada, houveram várias tentativas de se recriar o mesmo engajamento do público com diversas outras produções menos inspiradas. Manifest é, simplesmente, a mais recente.

A nova série segue diversas diretrizes que foram se estabelecendo na televisão após o sucesso de Lost, começando pela trama intrigante de apelo imediato. Um grupo de pessoas embarca em um avião em 2013, passa por uma leve turbulência durante o vôo, e pousam em 2018 como se o tempo não tivesse passado. De primeira, é possível formular diversas teorias (sem qualquer fundamento, claro) sobre como este fenômeno ocorreu. Estaria ele baseado em explicações científicas? Ou haveria alguma força sobrenatural por trás de tudo?

Tantas outras séries tentaram se destacar através desta mesma estratégia, apenas para acabarem entregando desenvolvimentos pouco inventivos ou estruturas completamente divergentes de suas propostas iniciais (Terra Nova, Alcatraz, Flashforward, The Event, e muitas outras que poderia listar). Todas tentaram ser a “nova Lost”, mas não tinham nem metade da audácia e da inovação que a série sobre a misteriosa ilha apresentava regularmente. Manifest não só parece estar longe de conseguir produzir o mesmo deslumbre com sua proposta, como também escolhe tomar caminhos extremamente fáceis para preencher suas tramas paralelas.


Após o primeiro episódio introduzir o grande mistério da série, somos apresentados aos personagens principais, que devemos seguir de maneira intercalada ao longo da temporada. AInda assim, MIchaela stone (Melissa Roxburgh) assume o protagonismo de Manifest, conduzindo o espectador através de narrações ao longo do episódio (não apenas conduzem, como tais narrações também procuram instigar o espectador com frases impactantes sobre o que pode estar por vir). Michaela, que costumava ser uma policial, encontra sua vida completamente alterada após estes cinco anos em que esteve desaparecida, e seu ex-namorado está, atualmente, cuidando de um caso onde duas pequenas garotas foram sequestradas.

Aparentemente por conta do fenômeno que a fez desaparecer, a protagonista começa a ouvir vozes que lhe passam comandos explícitos e repentinos como “desacelere” e “ liberte-os”. Como poderia se esperar, tais vozes ajudam a personagem a convenientemente solucionar o caso de seu ex-namorado, encontrando as garotas desaparecidas e ajudando-a a ser reintegrada na polícia. Tal enredo só traz desânimo para o futuro de Manifest, que deve construir seus episódios ao redor de investigações que serão, inevitavelmente, afetadas por estas vozes misteriosas. Uma abordagem extremamente preguiçosa, e pouquíssimo original para tratar esta proposta cercada de mistérios.

Apostando no engajamento que estas “novas Losts” sempre assumem que conseguirão, Manifest estabelece os diferentes obstáculos que cada um de seus núcleos narrativos apresentarão ao longo da temporada, e nenhum deles parece ter qualquer tipo de distinção de tantas outras séries que aproveitam os mesmos problemas familiares ao público, com exceção do pequeno Cal, um garoto diagnosticado com uma doença fatal, cuja irmã gêmea está cinco anos mais velha que ele. Caso a série adote sua perspectiva de maneira eficiente, pode gerar alguns momentos interessantes em meio à tantas tramas já consideradas genéricas para a televisão aberta americana.

E como se já não bastasse esta (mais uma vez) equivocada presunção de que o público consumirá tudo aquilo que traz uma proposta enigmática sem pestanejar, Manifest ainda procura estabelecer alguns outros elementos misteriosos, além das vozes, como a repetição (aparentemente) aleatória dos números 828, e ligações convenientes entre os passageiros desaparecidos (Uma médica especialista no tratamento que Cal precisa, também estava no avião, e agora pode ajudá-lo). Dificilmente, as resoluções para mistérios tão abrangentes costumam se mostrar satisfatórias para um público dedicado a decifrá-los com ainda mais voracidade do que os próprios roteiristas. Caso consigam surpreender esta público ao longo da temporada, será um mérito realmente memorável.

Mas, ao fim, Manifest se afasta de seus aspectos mais interessantes para acabar integrando seu mistério em tramas policiais, e seus vários personagens ainda estão superficiais demais para criar qualquer vínculo com o espectador. Este primeiro episódio não só apresentou vícios comprovadamente ineficientes na televisão, como também se propôs a estabelecer estes personagens sem o destaque necessário para que se tornem tão intrigantes quanto sua proposta. O interesse pela série deve decair conforme o desenvolvimento de sua trama se mostre tão pouco engenhoso quanto foi apresentado até agora. Infelizmente, a armadilha das “novas losts” parece ainda estar entre nós.