Entrando em sua última temporada, The Big Bang Theory já está longe de ser a série transgressiva que era em sua proposta inicial, mas permanece consistentemente divertida a cada reinvenção que se mostra necessária, conforme os contextos sociais mudam à sua volta.

Dez anos atrás, a cultura pop possuía uma formação incrivelmente diferente da que presenciamos hoje em dia, com os chamados “nerds” ocupando um espaço cheio de potencial para novas perspectivas cômicas que divergiam dos típicos estereótipos utilizados desde os anos 70. The Big Bang Theory abraçava estes estereótipos, e enaltecia as características que tornavam seus protagonistas tão distintos e interessantes de se acompanhar. Os tempos mudaram, e tais características já não são mais tão distintas, mas o personagens não tornaram-se datados ou irrelevantes no contexto atual. A série foi capaz de aplicar suas personalidades, outrora tão deslumbrantes, em novas situações que dialogavam com o andamento natural da cultura pop que estes personagens tanto prezam.

No começo, boa parte das piadas da série giravam em torno do fato destes protagonistas serem “excluídos” da sociedade, infantis em seus gostos e maneirismos, e com sérias dificuldades para interagirem com mulheres. Penny, por sua vez, representava este contraste dos personagens, sempre repleta de clichês e perpetuando as perspectivas equivocadas da época. Algumas temporadas depois, “nerds” já não eram tão estranhos assim, muito pelo contrário, eram almejados por uma nova geração que aderiu aos seus gostos e acompanhava os mesmo produtos que os personagens, com o mesmo fervor. Esta típica relação cômica entre desajeitados e mulheres atraentes, também, não servia mais ao público, que começava a perceber a ignorância por trás de tais dinâmicas antiquadas.


Surgiram então, Amy e Bernadette, duas mulheres igualmente inteligentes, que também não se encaixavam na norma social. A série continuou tratando seus “nerds” como sendo distintos por sua impressionante inteligência e aptidão para ciências nem um pouco populares, e procurava valor cômico em suas personalidades, ao invés de continuar ressaltando a “estranheza” de seus gostos por cultura pop. Ao invés disso, a cultura pop se manteve como um ligação entre este cenário da série, e o nosso mundo atual. Mais do que qualquer bom texto, The Big Bang Theory conseguiu se manter relevante, pois continuou a dialogar com o público que conquistou em tempo real, comentando grandes eventos do cinema e da televisão atual, além de debates populares sobre personagens de HQs.

Chegando nesta reta final, a série precisou, mais uma vez, rever seus focos principais. Não bastou apenas mudar suas perspectivas sobre a cultura pop, era necessário colocar estes personagens em obstáculos universalmente compreensíveis (assim como tantas outras comédias fazem), e começaram a tratar temas mais familiares ao público geral, como casamento e o nascimento de filhos. A série se manteve eficiente, pois nunca deixou seus personagens perderem o charme que possuíam em seu tempo de desajustados, e aplicou suas peculiaridades nestas situações tão comuns ao público. Sheldon, que gradativamente foi se tornando o carro-chefe incontestável da série, pode ter amadurecido em diversos aspectos, mas continua enfrentando dificuldades a cada nova fase da vida que este grupo de amigos encontra, e nunca deixou de ser encantadoramente irritante, não importando seu contexto.

Nesta nova temporada, Sheldon e Amy estão casados, e as dinâmicas de “marido e mulher” demonstram ter muito potencial para continuar explorando as soluções cínicas e calculadas com que o personagem procura lidar com seus problemas. Mesmo estando mais consciente de seu papel dentro de suas relações sociais, o personagem ainda é tão engajante por conta de suas dificuldades, quanto era dez anos atrás. Sheldon é, sem sombra de dúvidas, o personagem com a evolução mais substancial ao longo de todas estas temporadas, e conquistou o carinho e a devoção de um público que o acompanharia passando por toda e qualquer fase da vida, sem pestanejar (cientes disso, os produtores resolveram até criar a série prelúdio do personagem).

Sem muitos sinais de que irá, inevitavelmente, desacelerar a continuidade de suas tramas, o primeiro episódio desta décima primeira temporada nos mostra que estes personagens continuam sendo dinâmicos e excêntricos o suficiente para manter a série viva por mais alguns anos. Mas, como este não é o caso, The Big Bang Theory tem muitas chances de conseguir encerrar sua trajetória com louvor, e marcar o seu devido lugar como uma das grandes gigantes televisivas desta geração. Seria ainda mais recompensador, se a série se dispusesse a refletir sobre este caminho tão longo que percorreu, em meio à tantas mudanças sociais. Sheldon Cooper e seus amigos não são mais tão intrigantes quanto já foram um dia, mas suas evoluções continuam sendo tão envolventes quanto sempre foram, agoram que se aproximam de uma conclusão que não parecesse apressada, mas sim, natural.