Depois de um primeiro ano pouco impactante, The Gifted retorna para sua segunda temporada precisando provar que é capaz de ir além de seu material original, e apresenta um começo promissor para tal missão.

Nos últimos tempos, até mesmo a TV aberta se rendeu ao enorme potencial apresentado por HQs e super-heróis, produzindo séries baseadas diretamente em obras conhecidas nos quadrinhos ou, como é o caso de The Gifted, aproveitando personagens secundários e ligações com histórias mais consagradas, sem que seja necessário trabalhar os “pratos principais” destes universo dentro da série. Neste caso, os famosos “X-Men”.

Na primeira temporada da série, estabeleceu-se que os X-Men sumiram sem aviso, deixando apenas algumas instruções para que fosse construído um grupo de resistência mutante (que, essencialmente, faz o papel dos X-Men por aqui, mas sem o conforto da mansão, ou a liderança do professor Xavier). De maneira semelhante, a Irmandade liderada por Magneto nos quadrinhos é apenas mencionada durante o primeiro ano, deixando clara a sua existência no universo da série, mas sem muitos indícios de que poderá ser propriamente incorporada nas tramas atuais. Ao Invés disso, os papéis antagonistas da primeira temporada foram atribuídos ao eterno vilão das histórias mutantes, um governo temeroso.


The Gifted se propôs a trabalhar os temas recorrentes deste universo mutante com mais aprofundamento do que os filmes foram capazes ao longo dos anos. O preconceito e o ódio ao que é diferente movem boa parte das tramas do primeiro ano, e provavelmente não devem deixar de serem evidenciados tão cedo. E como também é frequente nos quadrinhos, os próprios protagonistas são levados a refletir sobre suas posições neste mundo intolerante, aderindo à luta pacífica, ou a violência desesperada. Inicialmente, o centro da série, os irmãos Von Strucker (Natalie Alyn Lind e Percy Hynes White) foram sendo deixados de lado em função da Resistência, e de seus personagens mais familiares ao público cativo, mas voltaram ao protagonismo na reta final da primeira temporada, revelando a proporção devastadora de seus poderes, e sendo posicionados em lados diferentes da luta que está por vir neste novo ano.

Constantemente apoiada em suas referências ao universo dos X-Men, a primeira temporada da série demonstrou certa dificuldade em estabelecer seus personagens e seu enredo de maneira atraente para o espectador casual, pouco familiar com o potencial deste universo. As preparações para os grandes embates desta segunda temporada, no entanto, já parecem indicar que veremos estes personagens tomando as rédeas da narrativa, e lidando com seus próprios conflitos ao invés de permanecerem esperando uma grande guerra épica que, convenhamos, provavelmente não chegará à televisão da forma como o público gostaria. Há muito mais valor em concentrar os focos narrativos na dificuldade de Polaris (Emma Dumont) cuidar de um bebê mutante recém-nascido, por exemplo, ou na discussão social que os novos antagonistas do “Hellfire Club” podem apresentar.

Os irmãos, por sua vez, precisam tomar atitudes que possam definir seus personagens de maneira mais substancial, deixando claras as suas posições e visões perante o mundo em que vivem. Há diversos clichês que precisam ser evitados neste embate entre irmãos, mas se os riscos e consequências forem relevantes o suficiente, pode-se evoluir a trama de maneiras muito mais engajantes e intrigantes do que diversas outras abordagens de super-heróis na TV conseguiram. Meu único receio para esta trajetória é o envolvimento excessivo dos pais (Stephen Moyer e Amy Acker), que tomaram para si boa parte do drama familiar do primeiro ano. The Gifted precisa escolher se continuará tentando ser uma história sobre uma família em fuga, ou se prefere expandir de vez seus horizontes, e confrontar esta família com tudo que está à disposição neste universo derivado.

“Distinção” é a palavra que precisa ser mantida em mente durante esta segunda temporada. Colocar Polaris como uma das personagens principais só é uma escolha acertada se a série se dispõe a encontrar maneiras diversificadas de utilizar seus poderes magnéticos (como aconteceu algumas vezes durante o primeiro ano), caso contrário, estaremos apenas vendo uma versão de menor orçamento do Magneto. A mesma diversidade precisa ser aplicada nos poderes de personagens menores, ao invés de atribuir formas preguiças de telepatia e telecinese por todos os lados.

The Gifted retornou com suas dinâmicas alteradas o suficiente para reacender o interesse de um público já sobrecarregado de histórias deste gênero. Resta saber se conseguirá se manter audaciosa e inventiva o suficiente para não acabar produzindo tramas irrelevantes em meio à sua incapacidade de utilizar todos os personagens e referências que gostaria.