A elogiada performance de Freddie Highmore como o Dr. Shaun Murphy permanece sendo o principal atrativo para se acompanhar The Good Doctor, que retorna para sua segunda temporada sem muito estardalhaço, mas com suas intenções originais plenamente preservadas.

Highmore já não é estranho ao estrelato do mundo das séries, depois de sua notável interpretação do icônico personagem Norman Bates. Em The Good Doctor, o ator não apenas agradou seus fãs de longa data, como também chamou a atenção de um novo público com seu personagem extremamente simpático, capaz de redefinir o tom de diversas cenas ao longo da série graças à sua personalidade vulnerável e a maneira peculiar com que lida com seus coadjuvantes. O deslumbre que o personagem causa no espectador vem da sua constante subversão de expectativas dentro de diversas situações, onde sua honestidade quase compulsiva gera desenvolvimentos repentinos dentro da trama de cada episódio.

O outro trunfo menos evidente de The Good Doctor, no entanto, está na experiência do criador David Shore, e na sua capacidade de gerar suspense e excitação em casos médicos que, mesmo apresentando um díficil linguajar científico, conseguem engajar o espectador, direcionando-o para os aspectos mais relevantes da trama e, ao mesmo tempo, enriquecendo-a com tal aprofundamento em sua verossimilidade. Ao olhar do espectador, os personagens funcionam mais como detetives do que como profissionais da saúde, e acabam tornando suas dinâmicas mais acessíveis para o público. A estratégia funcionava muito bem na série anterior de Shore, a aclamada “House”, e apresenta algumas evoluções interessantes nesta nova série, ainda que não seja usada com a consistência que poderia.


Highmore e Shore continuam sendo os aspectos mais positivos da série em sua segunda temporada, com seus aspectos negativos também retornando sem muita alteração neste primeiro episódio. Uma típica série procedural, The Good Doctor apresenta vícios e normas estabelecidos para o modelo na TV aberta americana que já não funcionam com um público em constante expansão..

Seus coadjuvantes apresentam progressões pouco relevantes, sempre alongadas à exaustão, que produzem um acompanhamento “novelesco” de suas tramas secundárias. Tal falta de dinamicidade também é imposta para não alienar espectadores casuais que possam vir a assistir a série em episódios aleatórios, mas raramente produz conteúdos memoráveis além de escapismos imediatos (Uma interpretação que a TV aberta vem percebendo ao longo da década).

Neste primeiro episódio do segundo ano, (tal qual o costume) a narrativa se divide entre uma trama principal, focada no protagonista Shaun Murphy, e diversas narrativas menores que avançam o contexto geral da série, com estes vários personagens secundários. As atitudes e obstáculos de Murphy, no entanto, inevitavelmente acabam ofuscando todo este “enchimento” do episódio, com o protagonista investigando sua mais nova intriga médica, ao mesmo tempo em que precisa aprender a lidar com seu mentor, Dr. Glassman (Richard Schiff), e sua árdua luta contra um câncer.

Acompanhar o personagem em suas peripécias médicas traz o típico entretenimento casual que séries procedurais se propõem a entregar, e The Good Doctor demonstra que ainda possui plena capacidade de reproduzir seus resultados com total eficiência, tanto para um público cativo, quanto para aqueles que se a encontrarem sem compromisso. Mas a real força de qualquer narrativa seriada sempre estará na evolução pessoal de seu protagonista (em sua almejada catarse). Shaun Murphy permanece um personagem com muito potencial a ser explorado por um roteiro que (adequadamente) se dedica a aprofundar suas relações interpessoais, e interpretado por um ator que incorpora seus maneirismos e seu charme de maneira encantadora.

Este começo de temporada acabaria passando sem alarde, em sua execução rotineira, se não fosse pelo retorno de uma personagem querida dos fãs que estabelece o gancho para um nova trajetória do protagonista.

Não tenho dúvidas de que a série, eventualmente, irá colocar Shaun em posições de maior pressão e responsabilidade dentro de sua vida profissional (ou, assim espero), com grandes atos heróicos e memoráveis que o definirão. Mas a ligação do personagem com o público sempre estará fundamentada no seu lado pessoal, e no aprofundamento de suas vulnerabilidades como um ser humano comum. Lea representa este desenvolvimento pessoal para o personagem, e pode acabar compondo uma virada mais brusca para a série, o que só a tornaria ainda mais interessante de assistir.

Fãs da primeira temporada de The Good Doctor devem permanecer plenamente satisfeitos, uma vez que tudo que funcionava no primeiro ano, permanece eficiente por aqui. A série precisará, no entanto, se manter dinâmica o suficiente para que o valor dramático de seu protagonista não acaba caindo na redundância que tantos outras séries acabaram enfrentando com temporadas mais avançadas. Ainda assim, se dependermos de Highmore e Shore, tudo indica que a história pode estar em boas mãos.