American Horror Story: Apocalypse continua sua oitava temporada sem receios de cair na auto-glorificação excessiva, e integra diversos de seus elementos passados à seu novo contexto pós-apocalíptico, de maneira pontual.

Esta nova temporada chegou carregada de expectativas dos fãs antigos de American Horror Story, anunciando que apresentaria um “crossover” entre os personagens da primeira, e terceira temporada Embora houvessem poucos indícios de como este evento acabaria sendo integrado à nova trama da série, os últimos episódios colocaram a narrativa atual em completa pausa, para poder, assim, contextualizar o passado do misterioso personagem Michael Langdon (cody Fern).

Michael chegou ao refúgio dos personagens que, até então, pareciam ser o foco desta nova temporada, para selecionar aqueles que seriam levados para dar início à nova sociedade pós-apocalíptica. Evidentemente poderoso, o personagem ainda não havia sido totalmente explorado, até a chegada das queridas bruxas de American Horror Story: Coven. Desde então, a série deixou de progredir sua história principal, para contar a trajetória de Michael até aqui, passando pelos universos de Coven e Murder House. Fãs mais atentos já haviam percebido que o nome “Michael Langdon” era o mesmo dado ao bebê “anticristo” que nasceu no final da primeira temporada, e que provavelmente esta, não era uma mera coincidência.


Em uma estratégia questionável, esta temporada estruturou esta primeira metade de sua história, ao contrário. Primeiro, vimos o misterioso personagem neste futuro em que a sociedade comum já foi exterminada. Depois, fomos apresentados à guilda de bruxos que ocupava este refúgio, anos atrás, que em sua ambições desmedidas, acabaram impulsionando Michael à posição de possível novo “supremo” da sociedade bruxa (E, de quebra, trazendo de volta, as tramas da terceira temporada, conforme a conveniência do roteiro). Eis que, então, ao invés de retomar a trama principal, a série retorna ainda mais para trás, e nos revela como foi a criação do jovem Michael em meio aos personagens da primeira temporada.

Embora seja interessante assistir novos desenvolvimentos para os personagens que aparentavam ter suas histórias encerradas, não posso deixar de sentir que a maneira como American Horror story resolveu “mesclar” seus universos soa gratuita, e pouco orgânica à qualquer espectador que não esteja apenas aproveitando a chance de rever personagens queridos. Apoiado na trajetória de Michael, o roteiro passeia por entre os elementos de temporadas passadas sem integrá-los apropriadamente à sua trama atual, relegando-os à flashbacks e contextualizações que chegam à ser, às vezes, redundantes (ou apenas, desnecessários ) dentro do que a narrativa vinha apresentando nos primeiros episódios desta temporada. A justificativa para tais sequências não tem a ver com a história em si, e sim com a intenção da série de revisitar tais tramas anteriores.

Supondo que a relevância de Michael continue sendo tão grande ao longo dos episódios restantes de American Horror Story: Apocalypse, tamanho foco no personagem acaba sendo melhor justificado. Mas, considerando o histórico da série de revirar suas tramas principais e alterar os focos de sua narrativa ao longo de uma única temporada, não me surpreenderia se a série ainda tivesse alguns caminhos pouco prováveis por onde pretende continuar esta nova história.

Também é importante mencionar o perigo à ser evitado por revisitar qualquer trama encerrada. Corre-se o risco de, por exemplo, invalidar qualquer recompensa emocional que tenha sido construída na temporada em questão, diminuindo o valor antológico que American Horror Story sempre tanto aproveitou. Boa parte do impacto de sua primeira temporada vinha da tragédia de seus protagonistas, fadados ao esquecimento e ao sofrimento. Em função deste episódio de contextualização, os personagens de Murder House são deixados com conclusões mais otimistas e resignadas, indo de encontro aos seus arcos dramáticos originais. Torço para que American Horror; Apocalypse ainda tenha maiores intenções para este universo conjunto, e não deixe estes personagens caírem na casualidade.

Este oitavo ano segue seu caminho com algumas adições interessantes, vindas da integração do universo das bruxas, que ainda pode ser muito importante para o restante da temporada, e não meramente um detalhe da trajetória de Michael Langdon. No entanto, só saberemos mais a frente, o quanto estas personagens retornantes serão essenciais para o iminente embate (que estava sendo construído nos primeiros episódios) pela reformulação moral da sociedade. Ao menos, é sempre revigorante acompanhar qualquer participação de Jessica Lange em American Horror Story, não importando qual seja seu personagem da vez.