Saiu a segunda temporada da série de animação adulta Big Mouth. Capitaneada pelos amigos de infância, Andrew Goldberg e o comediante Nick Kroll, a série causou grande impressão logo na sua primeira temporada ao explorar as erupções da puberdade já na fase pré-adolescente, claro, que com um linguajar mais ácido, além de algumas situações escatológicas. Mesmo mirando um público mais adulto, ou os quase maiores de idade, as situações e comportamentos dos principais personagens da trama, ainda exalavam certo frescor, pois era algo próximo. Agora, nesta nova temporada este mesmo frescor se dissipou demais, não conseguindo causar o mesmo impacto de antes.

Esta animação original da Netflix continua focando no trio de amigos Nick, Andrew e Jessi, sendo os dois primeiros baseados nos criadores da série. Cada um destes, com seu monstro hormonal pessoal e os mesmos problemas da temporada anterior. Nick, o menor e mais imaturo continua tropeçando com as palavras que saem de sua grande boca, como o título, enquanto sente a frustração de perceber todos os seus amigos, fisicamente amadurecendo mais rápido. Andrew continua atrapalhado com suas crises de ansiedade e em suas compulsões sexuais, especialmente masturbatórias, estimuladas por Maurice, seu “amigo” monstro. Já Jessi, a personagem de tratamento mais sóbrio do enredo, ainda têm dificuldades de lidar com o mundo a sua volta, enquanto passa pelas transformações naturais de qualquer garota da idade.

As novidades desta segunda temporada são: Gina, uma garota da escola que causou frisson entre os garotos por ter seios maiores que outras meninas; e o Mago da Vergonha, um tipo fantasmagórico que assombra os jovens imbuindo-os com sentimento de culpa por seus pensamentos e ações. Este último, certamente, um personagem muito interessante e catalisador para o amadurecimento dos jovens, mesmo que quase sempre sem graça em suas falas.


Nesta nova temporada de Big Mouth, a série deu uma certa suavizada em algumas de suas situações absurdas. É certo que houve uma mudança leve em alguns dos conceitos de uma temporada a outra. O que é curioso, pois na primeira temporada ela toca em temas mais sensíveis, ligados na inocência da transição da infância para a vida adulta, só que de maneira mais arrojada, sem coleira. Já nesta segunda parte, além de mais branda, em certos momentos até didática demais, o que é algo que joga contra o público alvo da série adulta. Obviamente, já crescido e possivelmente menos fresco a tais dúvidas sexuais.

O quinto episódio, o pior da segunda temporada, exemplifica bem este aspecto extremamente didático que a série resolveu tomar que visa educar sexualmente os jovens sobre tipos diferentes de métodos anticoncepcionais, e ainda explicar o quê são DSTs, doenças sexualmente transmissíveis. É evidente, que estes são temas importantes e essenciais a serem passados aos mais jovens, pois ainda são um tabu que muitos não ousam falar ou tocar. Porém, se é para instruir, que se saiba que é sempre mais instigante aprender, seja o que for, se transpassado de uma maneira mais leve, ou cômica, especialmente no caso de Big Mouth.

O contraponto a esses piores momentos da série, felizmente dão as caras em outros episódios. Mais precisamente, nos três primeiros episódios da nova temporada. No começo da nova fase, mais parecem como resquícios da temporada passada, pois há a mesma sensação de inocência sendo perdida para outras coisas ainda estranhas aos mais jovens, de ambos os sexos. No primeiro e terceiro episódio vemos, respectivamente, Nick em conflito com seu corpo que aparenta atraso no desenvolvimento físico, incluindo o aparecimento tímido de pelos pubianos, e Andrew lidando com situações que afrontam a combustão sexual contra éticas no campo social de relações entre amigos.

Mas definitivamente, o que melhor consegue englobar ambos os sexos, e com uma perspectiva mais sensível para o sexo feminino, é o segundo episódio ‘O que é que os peitos têm?’. Aqui, com a aparição de Gina, na voz carismática de Gina Rodriguez, vemos como se manifestam garotas e garotos diante as jovens de seios maiores. Vai da imaturidade masculina que pode chegar ao nível do assédio coletivo, a redenção dos mesmos ao reconhecer que seu comportamento pode ser nocivo, afetando o psicológico do sexo oposto. Já pela perspectiva feminina, é visada a ideia, muitas vezes repetida, de aceitação do próprio corpo e a valorização da beleza interior manifestada por uma autoconfiança necessária para sobrevivermos aos olhares alheios.

Uma pena que, por exemplo, o sétimo episódio tenha desperdiçado uma boa oportunidade para desenvolver situações em cima da discussão dos acordos sexuais entre os gêneros e as pechas extremistas que recaem sobre ambos, ainda mais nos tempos atuais. Ao invés, foi um episódio que mostra, e vangloria um pouco com uma música bem divertida, o templo da solteirice masculina com todas as suas bobagens e infantilidades prazerosas. Já o episódio seguinte, aproveita bem seus temas: as consequências das fofocas, ainda mais em tempos de redes sociais que facilitam expressar nossos pensamentos mas sem sentir ou saber quais são as reações destes pensamentos no mundo real, pois as redes sociais são campos onde atuamos sem credenciais.

Big Mouth da Netflix é uma série que em sua gênese remete a American Pie – A Primeira Vez é Inesquecível. Só que diferentemente do filme de 1999 onde o foco é quase que exclusivo na sexualidade masculina, a animação adulta graciosamente explora as taras femininas em todo o seu espaço criativo sexual.

Mesmo que engraçada, talvez, infelizmente, falte a Big Mouth em geral, mais nuances para caracterizar o sexo além das compulsões ansiosas que temos. Seguramente, o quinto episódio da primeira temporada é o que de melhor a série apresentou. Ali, foram explorados além dos vícios sexuais comuns. Não na parte física, mas na parte criativa, que desbrava pelos cantos mais atípicos do cérebro, mostrando o que talvez seja uma das maiores faltas na relação entre pessoas no mundo presente: a abstração do desejo, especialmente no sexo.

Um dos fatores deste afastamento do ser humano e o desejo sexual, que é curioso por natureza, é a hiper-exposição à pornografia. Que ao contrário de estimular, geralmente tende a suprimir a manifestação do desejo, pois o enquadra dentro dos limites de um tela retangular. Assim também, pode-se dizer de Big Mouth nas suas prioridades.