Independente de seus pequenos deslizes na segunda temporada, Demolidor continua sendo a menina dos olhos da Netflix, quando se trata das séries da Marvel. A qualidade de sua narrativa, tanto em termos mais técnicos, quanto puramente sua história, a colocam um grau acima das outras produções baseadas em quadrinhos da emissora. Aliás, colocam-na em patamar próximo ao melhor que a televisão tem a oferecer desse subgênero, como Preacher, que permanece como o absoluto rei nessa ‘categoria’.

Dito isso, era nítido que a série precisava não repetir os mesmos erros da segunda temporada – um deles sendo a divisão em duas partes, o que funciona muito bem para séries com hiatos na sua metade (The Walking Dead, Gotham, são bons exemplos disso), mas não é tão eficiente para produções de uma emissora de streaming, que libera todos os capítulos de uma vez – basicamente incentivando as “maratonas”. Felizmente, essa terceira temporada parece ter se esquivado desse deslize, nos levando de volta ao patamar da primeira, com possibilidade real de superar seu ano de estreia.

Antes de entrar em mais detalhes, no entanto, devo ressaltar que essas são primeiras impressões da temporada. Apenas tive a oportunidade de ver seus seis primeiros episódios (são treze ao todo). Sendo algo preliminar, e não uma análise completa da temporada – essa chega quando a série estrear, de fato – não precisa se preocupar com os spoilers. Não entrarei nas reviravoltas e o que for dito aqui já apareceu nos trailers e outros materiais promocionais de Demolidor, liberados pela Netflix.

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Dito isso, vamos lá.

Demolidor | Loft de Matt Murdock aparece em site de classificados online

Os eventos traumáticos de Os Defensores, que levaram todos a crer (na série e não na vida real) que o Demolidor/ Matt Murdock (Charlie Cox) havia morrido, obviamente precisariam ser o primeiro assunto a ser tratado pelo novo showrunner do seriado, Erik Oleson. Assumindo a posição ocupada, na segunda temporada, por Doug Petrie e Marco Ramirez, ele faz um ótimo trabalho em começar justamente daí, inserindo um salto temporal na história, sem confundir o espectador, por mais que não utilize cartelas que explicitem quanto tempo se passou desde Midland Circle (ver Os Defensores).

Quebrado, em todos os sentidos possíveis, Matt é levado para o orfanato em que cresceu, onde a Irmã Maggie (Joanne Whalley) cuida de seu corpo e mente, buscando resgatar Murdock da sua própria escuridão. Como todo bom conflituoso herói, ele não é um paciente fácil, mas não demora muito a vermos o Demolidor de volta à ativa.

Enquanto isso, Foggy (Elden Henson) e Karen (Deborah Ann Woll) seguem suas vidas normais, ainda traumatizados com a suposta morte do amigo. Karen, aliás, ainda não acredita totalmente que ele se foi e continua protegendo algumas peças importantes da vida de Murdock, como seu apartamento, que é alugado.

O perigo começa a se apresentar logo no início, através de Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio), ainda na cadeia. Preocupado com Vanessa, que está sendo procurada pela polícia, sendo enxergada como cúmplice do Rei do Crime. Para evitar a prisão da amada, Fisk opta por colaborar com o FBI, que o tira da cadeia, o colocando em um hotel para sua própria proteção, enquanto é vigiado pelos agentes federais. Obviamente, Matt, Nelson e Karen – junto de toda a cidade praticamente – não veem isso com bons olhos, preocupados de que o criminoso está de volta à ativa.

O mais interessante de como toda essa estrutura narrativa é construída, é como, apesar da divisão em capítulos, tudo flui da forma mais orgânica possível. Um ponto, verdadeiramente, leva ao outro, permitindo que enxerguemos com clareza todas as causas e consequências apresentadas durante essa primeira metade (em termos) da temporada. Mais importante ainda, é que a enrolação, típica de grande parte das séries da Marvel/ Netflix não aparece nessa parcela do terceiro ano de Demolidor: há sempre algo pelo qual se manter interessado, sem a necessidade de deixar os melhores acontecimentos para o fim.

Bom exemplo disso é a simplesmente magistral sequência de luta de um dos episódios. Novamente temos uma cena, em plano sequência, com o herói combatendo dezenas de bandidos e ouso dizer que a série realmente se superou nessa daqui, entregando a mais brutal, tensa e empolgante luta da série, que deixará qualquer espectador com um sorriso no rosto. Entretenimento de primeira. Créditos, claro, ao diretor Alex Garcia Lopez, já veterano de séries da Marvel e que, de quebra, trabalhou na ótima Utopia, injustamente cancelada pela emissora Channel 4.

Essa sequência, aliás, serve como o estopim de toda a ação propriamente dita da temporada. Vimos alguns combates antes, mas a verdadeira sensação de risco, de urgência, aparece aqui. Até então, tudo foi uma gradual ascensão para esse ponto. O showrunner, Oleson, dessa forma renova nosso interesse pelo seriado antes mesmo de começarmos a nos cansar, praticamente brincando com nossas expectativas. Somos verdadeiramente surpreendidos pelo que ocorre aqui, por mais que tudo tenha sido cautelosamente construído. Existem, sim, alguns deslizes menores, especialmente na transição da subtrama no orfanato para “as ruas”, mas entrarei em detalhes nisso na crítica completa, a fim de evitar spoilers por aqui.

Erros como esse podem ser facilmente perdoados quando levamos em conta toda a construção dos personagens, com um elenco afiado. O destaque, porém, vai para a nova adição da temporada, Wilson Bethel, como o agente Benjamin ‘Dex’ Poindexter. De muitas formas, essa temporada é claramente sua história de origem e Oleson desenvolve seu arco fluidamente, sem tirar nossa atenção do elenco principal e sempre deixando aquele gostinho de ‘quero mais’. Poindexter desempenha um papel chave na temporada e também nos entrega uma das sequências mais angustiantes de toda a série.

O que realmente importa é como tudo isso cria a sensação de que Matt está cercado por todos os lados. Essa realmente é a queda de Murdock e traz consequências assustadoras tanto para ele, quanto para aqueles à sua volta. Infelizmente, saberemos de todas elas somente quando a série estrear, no dia 19 de outubro de 2018. Por enquanto, pelo que foi visto até aqui, posso apenas dizer que realmente há motivo para ficar ansioso.

Nessa terceira temporada, Demolidor claramente se reinventa, mas sem abandonar os elementos que amamos na primeira temporada. A Netflix mostra novamente por que essa é a série de maior destaque dentre as produções suas baseadas em material da Marvel. Por enquanto, o que temos aqui é uma temporada praticamente impecável, capaz de desenvolver apropriadamente seus personagens, sem cair na velha enrolação, tudo enquanto entrega belos momentos de tensão. Matt Murdock pode estar quebrado, mas nunca esteve tão em forma.

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