CONTÉM SPOILERS

Supergirl precisava mudar. Depois de uma irregular terceira temporada, a série acabou se perdendo em uma tentativa de atingir grandiosidade, em meio a inúmeros arcos de personagens que mantinham um certo vai e vem nada saudável para a trama geral, nos distanciando dos pontos altos que vimos no segundo ano da série. Felizmente, a CW reconheceu isso e demonstrou já nesse episódio de estreia da quarta temporada, American Alien, os primeiros sinais da mudança, que, não por acaso, acompanham a série em seu novo dia de exibição, aos domingos, dia que certamente garante maior visibilidade à série.

O capítulo tem início com um tom mais otimista, mostrando a heroína salvando diversas pessoas ao redor do mundo, com Kara (Melissa Benoist) demonstrando seu costumeiro tom mais esperançoso em relação à humanidade. Obviamente, não demora muito para essa falsa sensação de prosperidade ir embora, com ataques que provam ser relacionados a movimentos de ódio contra alienígenas, aparentemente liderados pelo Agente Liberdade (Sam Witwer), que faz uso de seus dois lacaios, Mercy (Rhona Mitra) e Otis (Robert Baker) Graves, dois velhos associados dos Luthor – tanto no material original, quanto na série.


Desde já, fica bastante clara a intenção da série em se posicionar acerca do recente crescimento de pensamentos mais extremistas ao redor do mundo, com a assustadora propagação de discursos de ódio – sejam eles velados, ou não – pregando o racismo, xenofobia, misoginia e homofobia. Quadrinhos de super-heróis invariavelmente sempre demonstraram um viés político – algumas publicações mais que outras – e é interessante ver que o seriado está se posicionando tão abertamente sobre isso, especialmente em um cenário profundamente dividido, algo que chega a ser dito explicitamente no episódio.

Com isso, vem de forma natural, orgânica, a ênfase nesses movimentos de ódio contra alienígenas, que, claro, representam diversos grupos de minorias em nossa própria realidade, não muito diferente do que as HQs dos X-Men vêm fazendo há décadas. Aliás, a própria escolha de uma atriz trans, Nicole Maines, para fazer parte do elenco, em papel de tamanho destaque (ela será a primeira super-heroína trans da História da Televisão) passa uma mensagem extremamente progressiva e saudável, certamente metalinguístico, que de cara posiciona Supergirl contra a violência em qualquer forma.

A personagem de Maines, por sinal, funciona como uma boa forma de trazer mais relevância ao arco envolvendo a CatCo, que basicamente parecia servir como um tapa-buracos nessas últimas temporadas. Acompanhar mais uma jornalista tentando crescer na carreira – ainda que ela também se tornará uma super-heroína – traz necessários novos ares para esse lado da série. Sim, James também sempre esteve lá, mas a ênfase no Guardião era tamanha que ofuscava completamente esse lado de sua vida.

Por sinal, é curioso como a subtrama envolvendo o processo criminal contra o personagem foi resolvida de forma tão breve e despretensiosa. Claro, veremos mais disso no futuro, especialmente após a declaração da promotora de que ele seria colocado atrás das grades caso vestisse o manto do Guardião novamente. Mas o que vimos aqui foi uma tensão mal construída e imediatamente resolvida, como se estivesse meramente abrindo espaço para outra subtrama – seja um conflito interno para retornar ao papel do vigilante, seja para nos levar a um desdobramento em seu relacionamento com Lena Luthor. Em todo caso, descobriremos em breve.

J’on J’onzz (David Harewood) é outro que parece um tanto deslocado em American Alien. Sim, ele oferece conselhos à Supergirl e basicamente desvenda o mistério logo nos minutos iniciais (era bastante óbvio, afinal). Mas não tê-lo na linha de frente ainda soa estranho e, francamente, um desperdício de personagem, ainda que isso não seja incomum nos quadrinhos. Sim, devemos vê-lo tomando um papel mais ativo futuramente, mas esse discurso de manter a paz, especialmente em uma missão para proteger alguém e não atacar, parece mais uma desculpa do roteiro para não tornar as coisas fáceis demais para a heroína. Isso, contudo, não justifica o fato de uma super-heroína que voa e tem super velocidade deixar uma bandida, em uma moto, escapar. Mas isso já se tornou comum nas séries da CW (The Flash que o diga).

Do lado mais técnico essa première de temporada certamente não impressiona. Os efeitos especiais, que já podemos ver nas cenas iniciais, continuam bem medíocres, mas não chegam a impactar negativamente nossa percepção do episódio como um todo. O grande problema está na montagem de algumas sequências, algo que fica bem evidente no trecho do ataque contra a presidente, que mostra os antagonistas praticamente se teletransportando do local do ataque, para uma perseguição em alta velocidade com a Supergirl. Isso não gera confusão no espectador, mas traz um nítido estranhamento, um descuido, que prejudica a narrativa mais do que qualquer abuso da suspensão de descrença.

Felizmente, como um todo, essa estreia da 4ª temporada de Supergirl dá conta do recado em iniciar as necessárias mudanças que a série tanto precisava. Percalços no meio do caminho são esperados e o seriado ainda precisa lidar com algumas pontas soltas e decisões tomadas nos anos anteriores. Ainda assim, parece promissor esse novo começo para Kara Danvers e seus amigos. Tivemos a introdução de um ameaçador vilão, uma mudança clara nos inimigos que a super-heroína há de enfrentar (grande parte da ameaça vem das próprias pessoas quem ela salva, como a protagonista mesmo diz), inícios de subtramas envolventes, mas que não tomam mais espaço do que deveriam e alguns novos personagens que definitivamente prometem trazer novos ares para a série.

Com isso, a quarta temporada de Supergirl não trouxe o começo perfeito, mas parece estar no caminho certo.

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