Depois de algumas conturbadas polêmicas por conta de seu material promocional, Titãs estreia sua primeira temporada, servindo como carro-chefe para o lançamento do serviço de streaming exclusivo para obras da DC Comics, o DC Universe.

Titãs se propõe a ser uma adaptação dos famosos personagens do grupo “Jovens Titãs”, já conhecido do público geral por conta de duas séries animadas (uma infanto-juvenil, e a outra mais infantil) presentes no Cartoon Network. Nas HQs, o grupo já passou por diversas formações, muitas delas incluindo ajudantes e parceiros de super-heróis maiores, como Superboy e Kid Flash. Na televisão, no entanto, a formação mais conhecida traz Robin liderando a equipe formada por Estelar, Mutano, Cyborg e Ravena.

Nesta nova série, concebida por Akiva Goldsman, e adequada por Greg Berlanti (o mesmo responsável pelos sucessos do Arrowverse), os mais famosos integrantes do grupo estão todos presentes, com a exceção de Cyborg, que agora está mais associado às atuais formações da Liga da Justiça. Deixando as caracterizações para mais adiante, já é possível perceber algumas divergências notáveis entre estes protagonistas, e suas versões dos quadrinhos.


Ravena (Teagan Croft), que costuma ser assertiva e antipática nas HQs, fica responsável por dar início à esta narrativa, insegura e confusa por conta de seus poderes recém-revelados. Por conta de uma misteriosa visão, onde assiste a morte dos pais de Robin, a personagem vai atrás do “já não mais tão fiel assim” escudeiro do Batman. Robin (Brenton Thwaites) se apresenta como uma versão menos estabelecida de seu mentor, que busca, justamente, encontrar suas próprias distinções nesta nova cidade.

Estelar (Anna Diop), por sua vez, está longe de ser a personagem meiga que era vista nas séries animadas, e evidencia mais o seu lado “princesa guerreira” que é perfeitamente condizente com outras de suas encarnações nas HQs. Neste primeiro episódio, Estelar ainda segue sua própria narrativa, buscando integrar-se o nosso mundo, e Mutano, conhecido piadista da equipe, é apenas vislumbrado com uma cena cômica ao fim do episódio. Não há muitos indicativos de como a dinâmica da equipe funcionará nos episódios adiante, muito menos sinal dos personagens menos conhecidos do público, que também farão parte da trama, Rapina e Columba.

Titãs enfrentou algumas rejeições desde que seus primeiros aspectos visuais foram revelados ao público. Muitos se sentiram incomodados com a caracterização dos personagens principais, principalmente Estelar, que se mostrava bem diferente de suas versões mais conhecidas. De maneira geral, pode-se dizer que todo o trabalho visual da série apresenta alguns equívocos, não apenas em figurinos, mas também na fotografia genérica que pouco complementa cada cena.

É justo dizer que os personagens não possuem visuais muito empolgantes. Ravena está longe de trazer toda a imposição de seu visual tenebroso, e os poderes de Mutano claramente trarão diversos momentos de incômodo com o CGI visto neste primeiro episódio, que está longe de conseguir atingir os padrões atuais do público fã de super-heróis. A caracterização de Robin é, talvez, a mais fiel às suas origens (mas, convenhamos, também é a mais fácil de se reproduzir para a televisão). Nenhum destes defeitos se estende para as atuações propriamente ditas, que embora não cheguem a impressionar, também não decepcionam com o pouco de tempo de tela às suas disposições.

A maior divergência desta adaptação, no entanto, vem da própria abordagem empregada pela série para retratar este grupo de jovens heróis. Aparentemente inconsciente de todas as principais reclamações do público geral às produções da DC nos cinemas, Titãs é excessivamente sombria, e repleta de violência gratuita, pouco justificada além do mero choque visual. Robin e Ravena protagonizam algumas destas cenas, com a série intencionalmente evidenciando os momentos mais grotescos da ação, definindo-se como uma versão mais “madura” deste grupo de personagens.

A abordagem é, no mínimo, equivocada. E, no máximo, uma estratégia pouco inventiva para captar a atenção do público casual. Por um lado, Titãs quer apresentar uma nova série, livre de qualquer amarra que venha com o material original, e que possa conquistar novos espectadores, tanto quanto agradar aqueles que já tenham alguma referência. Por outro lado, quer capitalizar o máximo que pode em cima do grande universo DC que a engloba, e cativar fãs do novo serviço de streaming, já bem familiarizados com a franquia. Acaba não conseguindo ser plenamente eficiente em nenhuma das duas propostas.

Este primeiro episódio de Titãs representa uma pobre adaptação do material original, e é um piloto mediano, na melhor das hipóteses. Isso não quer dizer que a série não tenha potencial para se tornar muito mais aproveitável por ambos os lados do público, com um melhor desenvolvimento destes personagens (fiéis ou não), e a construção de uma boa dinâmica de grupo. Mas, de início, esta parece ser uma tarefa árdua para a mais nova empreitada do Universo DC.