Embora tenha sido salva pela Netflix, não é difícil perceber os motivos por trás do cancelamento de Lúcifer após esta terceira temporada. Com um maior número de episódios, a série teve suas tramas principais diluídas em meio à romances pouco envolventes e desenvolvimentos redundantes, que com certeza frustraram uma boa parte dos espectadores conquistados pela eficiente proposta inicial.

É válido ressaltar que Lúcifer é baseada na HQ de mesmo nome, derivada da memorável obra de Neil Gaiman, “Sandman”. No entanto, se a HQ já se desviava por caminhos menos atraentes do que Gaiman propunha no começo de “Sandman”, a série da FOX, então, passa longe de qualquer aprofundamento filosófico ou das reflexões que o autor procurava instigar sobre os conceitos de religião e mito.

Ainda assim, a ideia de se acompanhar o Diabo em pessoa vagando pelas ruas pecaminosas de Los Angeles é um ponto de partida perfeito para qualquer narrativa seriada, seja esta procedural ou não, e a abordagem mais apelativa escolhida pela FOX não é surpresa nenhuma dentro do cenário da TV aberta americana.

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A série possui um protagonista indiscutivelmente charmoso e, principalmente, excitante, uma vez que a impetuosidade e o descaso de Lúcifer são capazes de gerar momentos divertidos em praticamente qualquer situação colocada diante do personagem. Suas reações sempre serão descomprometidas e inconsequentes, trazendo uma sensação de “liberdade” ao espectador que o acompanha.

Com três temporadas concluídas, no entanto, é difícil não sentir o desgaste do personagem. Embora as tramas procedurais ainda consigam gerar uma ou outra situação onde a personalidade de Lúcifer continua sendo transgressora o suficiente para ser divertida de acompanhar, era inevitável que a evolução do personagem acabasse entrando na frente desta consistência. A série busca evoluir seu protagonista através de novas perspectivas que nem sempre soam orgânicas, ou possuem ramificações perceptíveis em meio aos vários casos policiais ( construídos e executados sob o mesmo molde que o público já está cansado de consumir durante as últimas três décadas)

A busca de Lúcifer (Tom Ellis) pela compreensão da humanidade raramente produz resoluções relevantes para as superficiais interpretações da série, mas serve como um meio de transformação palpável para o protagonista, mantendo o engajamento e a identificação do espectador com sua jornada. No entanto, com um número maior de episódios nesta temporada, este que deveria ser o atributo mais valioso da série, acaba sendo dispersado, intercalando tramas paralelas tão distantes do conflito central que poderiam, até mesmo, ser pejorativamente chamadas de “tramas terciárias” (E o pobre Amenadiel acaba sendo jogado de um lado para o outro, simplesmente para preenchê-las).

Depois de um final que parecia alterar a dinâmica da série permanentemente, na segunda temporada, Lúcifer retornou com poucas alterações em sua fórmula, plantando novas intrigas na forma de um novo “grande vilão” (O tal Sinnerman, que não demora a ser descartado), e na chegada de um novo coadjuvante misterioso cuja função é, simplesmente, revirar um pouco os relacionamentos entre o elenco principal. Este coadjuvante é o tenente Pierce, interpretado por Tom Welling, que embora também sofra com a dispersão narrativa desta temporada, apresenta um alcance dramático mais limitado do que víamos com seu jovem Clark Kent, em “Smallville”.

As reviravoltas envolvendo Pierce (e sua verdadeira identidade bíblica) são alongadas por estes mais de vinte episódios, sempre deixadas em segundo plano perante o (geralmente, pouco original) caso da semana. Os episódios costumam abrir com algum breve desenvolvimento na trama principal, e só retomam o ritmo nos minutos finais, deixando algum gancho para o próximo.

Não há muito que se possa dizer sobre a terceira temporada de Lúcifer que já não tenha sido incessantemente dito sobre toda e qualquer série procedural da TV aberta americana. A função de produções como esta costumava ser agradar o público casual que liga a TV depois de um dia cansativo, e não procura nada além de um entretenimento escapista. No entanto, o espectador contemporâneo já não consome séries com o mesmo descompromisso, e a enorme quantidade de redundâncias e desvios irrelevantes que tais produções apresentam impede o almejado engajamento das típicas “maratonas”.

É evidente, o quanto a série está consciente do interesse do espectador por seu cenário sobrenatural e o funcionamento de seus personagens bíblicos, mas os roteiristas aparentam serem obrigados a interromper a história por conta da encomenda de episódios, o que resulta, até mesmo, em episódios fora da linha temporal desta temporada. Os cansativos vícios narrativos deste modelo de produção são os maiores responsáveis pela queda da audiência de Lúcifer, e devem compor o primeiro item a ser revisto, com a série se reencontrando na Netflix.

O elenco recorrente de Lúcifer acaba sendo utilizado além da conta, tendo suas funções dentro da trama banalizadas pela constante necessidade de se desenvolver novas situações e intrigas para cada episódio. A volta de Charlotte tinha grande potencial, com seus dilemas morais e o tormento de não se lembrar dos últimos meses, mas (tal qual Amenadiel) a personagem é posicionada de acordo com a conveniência do roteiro, e com sua trama da segunda temporada já se tornando uma memória distante, sua presença soa completamente desnecessária, e sua trajetória, previsível. Ressalto, no entanto, a atuação de Tricia Helfer, que merecia um texto melhor, mas entrega momentos emocionais merecedores de destaque nesta temporada.

Lúcifer é uma série que estendeu suas instigações principais por tempo demais. Durante suas três primeiras temporadas, criou expectativas sobre o romance entre Lúcifer e Chloe (Lauren German) (“a detetive”, para os íntimos), sem nunca realmente avançar qualquer obstáculo desta trajetória. Finalmente, (mais uma vez) parece que teremos o esperado diálogo em que Chloe aceitará a realidade da situação, e confrontará tudo que acreditava sobre Lúcifer, até então.

E sobre o protagonista em si, sua incessante paranóia de que Deus é o responsável por tudo que entra em seu caminho já não mantém a série intrigante, e também precisa ser escancarada o quanto antes pela próxima temporada. Torço para que a nova leva de episódios, com o espaço proporcionado pela Netflix, possa explorar todo o potencial que Lúcifer sempre teve com sua proposta. Sem dúvidas, será uma experiência muito interessante acompanhar como os roteiristas da série aproveitarão esta oportunidade de levar suas tramas, e seu cativante protagonista, para um outro nível que dificilmente poderia ser alcançado na TV aberta.

Lúcifer
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